TRANSGENERIDADE E NEGRITUDE

29/05/2020

NÃO É PRECISO UM ESTOPIM PARA ENTENDER E VALIDAR AS LUTAS DE UMA PESSOA TRANS 

Estamos ainda no mês do combate mundial à LGBTfobia. Uma bandeira levantada no dia 17 de maio. Dia este em que acordei animada para inclusive escrever essa coluna e, num estalo, todo o ânimo se transformou em uma sensação de desesperança.

Foi exatamente no dia 17 de maio que Demétrio Campos, um jovem negro transgênero, de periferia, artista, tirou a própria vida. Não tive muitos contatos reais com Demétrio, mas o conheci num evento. Ele de longe era a pessoa mais sorridente daquele espaço. Já acompanhava Demétrio nas redes sociais fazia algum tempo - nessas minhas buscas por narrativas pretas sobre transgeneridade.

A letra T do nosso alfabeto LGBTQ sempre se mostrou para mim como a comunidade mais vulnerável e que, sendo uma mulher lésbica, o mínimo que sinto que posso fazer pelas pessoas trans é entendê-las e apoiá-las. Foi nesse intuito que segui Demétrio e aprendi muito com tudo o que ele falava e mostrava.

Após a partida de Demétrio vi também nas redes sociais uma busca de muita gente por motivos e estopins que o fizeram tirar a própria vida. Uns argumentavam que poderia ser a família, remédios (ou falta deles), "cancelamentos" da internet, a própria pandemia, enfim. Fiquei me perguntando se realmente a morte de Demétrio precisava, de fato, de um grande motivo central.

Ser preto, periférico e trans no país extremamente racista como o Brasil, e que mais mata pessoas trans, não é um cenário suficiente para que paremos de procurar por um estopim?

MATRIX NUNCA FOI UM FILME SOBRE O HOMEM BRANCO CONTRA O SISTEMA

Encontrei em Matrix, filme de 1999, o exemplo visual para que não caiamos mais nesse discurso de que não entendemos as pessoas trans.

Matrix sempre foi lido como o filme que aborda a narrativa do homem branco contra o sistema vigente. O que pouca gente sabe é que a obra nada mais é que do que O PROCESSO DE TRANSIÇÃO DE UMA PESSOA TRANS - interna e externamente.

Escrito pelas irmãs Wachowski, Lana e Lilly se apresentaram como mulheres trans anos depois do lançamento de Matrix, em épocas diferentes. E Lana contou em uma entrevista - com poucos registros - que o filme era uma analogia à saga de uma pessoa trans na sociedade.

Fiz meu exercício e fui rever Matrix sob o olhar da transgeneridade. E sim, fez todo o sentido para que eu, uma pessoa cis, entenda melhor as dores, lutas e causas de pessoas como Demétrio Campos.

Com 21 anos de existência, Matrix foi lançado em 31 de março de 1999, Dia Mundial da Visibilidade Trans. Na narrativa, Thomas Anderson (Keanu Reeves) não se encaixa na realidade em que vive, nada faz sentido e ele se sente completamente fora do sistema.

Thomas só se reconhece enquanto alguém válido para ele mesmo quando está sob o nome de Neo. É na internet que ele encontra um grupo disposto resgatá-lo da realidade mentirosa em que vive. Esse grupo o "acorda" para que Neo enfrente seus medos e banque ser quem realmente ele sente que é. É aqui que acontece a famosa cena das pílulas vermelha e azul.

"Qual força te leva a sair do seu lugar?"

Neo, claro, escolhe a pílula vermelha que o faz "acordar para a verdade de sua existência". Renascer enquanto um novo ser que precisa agora, mais do que nunca, lutar pela própria existência já que nesse novo mundo, o sistema é inimigo de pessoas como ele.

Aliás, ao renascer Neo acorda para uma realidade que é completamente mais hostil e violenta que antes. A cena do renascimento, inclusive, explora a sujeira e obscuridade. E. ao longo do filme vemos o quanto esse novo cenário é miserável e infértil. Na analogia da transgeneridade, podemos perceber ao assumir ser uma pessoa trans, a sociedade se torna claramente mais cruel.

"Você precisa livrar-se, Neo, do medo, da dúvida e da descrença"

Essa frase acima é falada para Neo de diversas formas ao longo da narrativa. O personagem antes de qualquer pessoa precisa acreditar em que ele é, sem medos. É assim que as irmãs Wachowski nos apresentam os conflitos internos que uma pessoa trans atravessa. O trabalho com o corpo também é bastante explorado numa espécie de tentativa de nos mostrar o quanto o corpo está pronto para mudanças quando você toma a decisão de experimentá-lo.

O mais marcante para mim foi a ideia de finalização de Matrix. Thomas Anderson apesar de tudo conseguiu transcender para Neo, mas a história não acaba aí. Nos outros dois filmes que sucedem a trilogia, Neo está numa constante e intensa luta contra o sistema que o enxerga como ameaça dentro de uma sociedade em que todos estão entorpecidos.

Diante de tudo que nos é apresentado. As lutas, causas, medos e esforços de uma pessoa trans para ser minimamente reconhecida e validada, eu te pergunto: e quando além de transgênero você é negro?