Sapatãs e bis, precisamos conversar sobre lógica de rivalidade e modelos de relacionamento

31/08/2020

Eu, uma mulher lésbica de 29 anos, só passei a acreditar na rivalidade entre mulheres LGBTQs há dois anos. Eu que nunca desconfiei que esse aparato pudesse ser alimentado em relações afetivas entre mulheres.

A questão é: não estamos acima de possibilidade de nutrir rivalidade entre nós. E isso fica muito mais evidente quando falamos da figura da ex.

A ex da sua atual namorada definitivamente não é para ser uma figura ameaçadora. Mas na vida real não é bem assim. Ainda mais quando falamos da perspectiva de mulheres negras - que foram forçadamente ensinadas na sociedade a não ter auto segurança em suas imagens.

De uma forma mais generalista, não é nada equivocado partir do pressuposto de que mulheres negras sejam mais inseguras quanto à autoimagem em seus relacionamentos. Mas isso não pode ser jogado em cima da sua companheira como justificativa do seu ciúmes ou insegurança. É, na verdade, para ser cuidado por você - vamos dar uma chance para a terapia.

Reconhecer que seu ciúmes é fruto de uma lógica controladora (mesmo que conscientemente você não tenha essa intenção) e que ele pode alimentar rivalidades entre mulheres, além de privar a liberdade da outra, é importante demais. Precisamos parar de olhar o ciúmes como "cuidado" - e convenhamos que geralmente ele não é muito conversado na comunidade LGBTQ. Fica mais parecendo que mulheres lésbicas e bis estão acima desse lugar.

Porém: não estamos.

OBS:. e como bem pontuou uma amiga, o ciúmes ainda caminha junto da reprodução de lógica colonial de posse de corpos.

Então o mais saudável é puxar esse seu ciúmes e levar para ser conversado e entendido com sua parceira de forma natural e sincera. Não se sinta boba ou imatura por fazer isso, é o mais justo com você e com ela.

O que não é nada justo é pedir para que ela pare de conversar ou interagir com a ex - que pode ser amiga dela no momento. Entenda que você não pode interferir nessas relações por mais que te afete. A solução precisa ser conjunta.

E as formas de rivalidade?

Agora vamos lembrar também que existe quem use do ciúmes para abalo emocional da outra. É a aquela velha lógica de alimentar rivalidades para se sentir mais desejada e "disputada" por mulheres.

Exemplos: quando você aciona a sua ex em momentos de fragilidade da sua atual namorada para ativar ciúmes. Isso definitivamente é fazer uso de uma dinâmica de rivalidade. Ou até mesmo quando você é a ex que não hesita em criar situações de confronto (mesmo que pequenas) com quem a sua ex-namorada está se relacionando atualmente.

Caso você já tenha feito isso até mesmo sem perceber, não sinta-se "demonizada". O mais importante é entender que essas duas posições pairam em cima da heteronormatividade e não devem ser repetidas.

Digo isso a partir do entendimento de que rivalidade e ciúmes são condições que vêm da lógica heteronormativa monogâmica de se relacionar - onde o homem está ali afirmando seu controle pela mulher de diversas formas: sexualmente, afetivamente e fisicamente.

Nós, enquanto mulheres lésbicas e/ou bis, precisamos refletir sobre todas essas formas de relações que nos foram empurradas goela abaixo e que devem ser discutidas, analisadas, amadurecidas e questionadas... até encontrarmos práticas mais saudáveis e que façam mais sentido para nossos relacionamentos.

Lésbicas e bis, não se privem também de conversar sobre modelos de relacionamentos. Isso é importante demais para o nosso bem-estar.

Bom, então para começarmos aos poucos a levantar essas conversas, vou deixar aqui um texto do QG FEMINISTA:

Monogamia e não-monogamia em relacionamentos lésbicos

https://qgfeminista.org/monogamia-e-nao-monogamia-em-relacionamentos-lesbicos/