Revolta dos Malês

13/03/2020

Ocorrida entre os dias 24 e 25 de janeiro de 1835, a Revolta dos Malês foi um levante dos escravos de Salvador, Bahia, que se destacou por ter uma forte motivação religiosa e ser encabeçada por líderes letrados. Reunindo cerca de 600 pessoas, foi das lutas mais importantes contra a escravidão no Brasil.

 

Contexto


No início do século 19, a cidade de Salvador contava com, aproximadamente, 65 mil habitantes, dos quais cerca de 40% eram escravos oriundos de Cabinda, Benguela e Luanda. Quando incluídos homens livres e alforriados, os negros e mestiços representavam 78% da população.
Na época, a Bahia também era marcada pela crise econômica e a escassez que atingiram os segmentos mais pobres e cativos da cidade - o que, mais tarde, fez com que se transformasse em palco da revolta.
Segundo Maske, o levante pode ser representado pela conjunção de conflitos de classe, etnia e religião, comuns a boa parte da população da época. "Embora tenham participado não apenas escravos, mas também libertos, foi possível construir uma identidade entre ambos baseada em experiências comuns: o próprio cativeiro, a experiência de trabalho nas ruas, as condições de vida muito parecidas e a discriminação racial", afirma.


A Revolta


Os malês - "muçulmanos", na língua iorubá - eram povos africanos escravizados que, impedidos de exercer suas crenças islâmicas, organizaram um movimento de resistência motivado pela repressão das autoridades baianas.
O grupo queria tomar para si seus direitos de realizar festas religiosas, ir à mesquita e, claro, ter sua liberdade. Por isso, organziaram uma rebelião que, mesmo que por apenas poucas horas, tomou as ruas da cidade. O primeiro alvo a ser atingido foi a Câmara Municipal de Salvador, cujo subsolo guardava a prisão onde se encontrava Pacífico Licutan, um dos mais populares líderes malês.
O movimento foi arquitetado para eclodir em um dia religioso, quando, na região do Bonfim, aconteceria uma festa católica celebrando Nossa Senhora da Guia. Mais especificamente, esse seria no momento em que os escravos sairiam para cumprir tarefas cotidianas e se uniriam contra governo.
Segundo registros, o plano incluía provocar, em diversos pontos da cidade, incêndios simultâneos que distraíssem a atenção das autoridades. Porém, o movimento foi descoberto por um juiz de paz e, antes mesmo de eclodir, as forças policiais se articularam rapidamente para impedir o conflito.


Líderes


A liderança malê era composta pelos escravos nagôs Pedro, Gonçalo e Joaquim, e pelo liberto nagô Jorge da Cruz Barbosa. Há ainda uma líder pouco conhecida: Luiza Mahin, que, apesar de não ter comprovação histórica, é muito citada nos contos orais de Salvador.
A jovem teria sido uma africana alforriada que trabalhava como quituteira e teve participação essencial na articulação do movimento. O romancista Armando Avena, autor do livro Luiza Mahin: Os amores e a luta da líder da rebelião que reuniu todas as etnias para libertar os escravos e fundar um Estado Islâmico no Brasil (Geração editorial, R$39,90, 232 páginas), defende que ela teria sido uma das mais importantes heroínas brasileiras.
"Luiza nem sempre é retratada pelos historiadores", diz Avena. "Uma parte deles diz que não há comprovação de sua existência e outra afirma que ela foi protagonista da revolta. O que ninguém nega, é sua importância para o Brasil."
Acredita-se que Luiza teria sido mãe de Luiz Gama, primeiro poeta negro brasileiro. Em uma carta escrita por ele em 1880 destinada ao jornalista Lúcio de Mendonça, Gama descreve sua mãe como uma mulher bonita, de baixa estatura e dentes "alvíssimos como a neve". Nos traços de sua personalidade destacam-se a geniosidade e a sede por vingança. "Mahin está no imaginário da população brasileira, sobretudo da população negra. Ela é geralmente retratada como uma princesa que seria uma das articuladoras da revolta", diz Armando.


Desfecho


Após o conflito, as forças policiais procuraram por líderes e envolvidos. Foram recolhidos objetos como tábuas para ensinar a ler e a escrever em árabe, documentos contendo frases do Alcorão e vestimentas como túnicas brancas. Segundo Maske, mais de 500 pessoas foram punidas com açoites, prisões e deportações. Dos revoltosos, 281 foram condenados à prisão e 16, à morte.