Porque o funk é terapêutico para pessoas negras?

11/07/2020

Cheguei a essa conclusão. O funk é terapêutico para pessoas negras, faveladas e periféricas.

E de onde eu tirei isso?

A celebração, a festa é algo marcadamente na cultura negra, especialmente na diáspora. A escravidão foi severa e repressora, e mesmo assim a celebração não foi inteiramente extinta, e sem romantizações, não preservamos a capacidade de celebrar porque somos "resilientes", preservamos a celebração para sobreviver.

Se penso nas heranças psíquicas da escravidão que nos acompanham até hoje, tem ainda a valorização dos aspectos materiais como forma de simbolização, que exemplificando é aquele conforto da mãe preta, trabalhadora que passa a semana toda longe dos filhos pequenos, mas explica para eles que tanto trabalho é para que eles ganhem uma roupinha nova no fim do mês.

Temos ainda a vivência artística como algo experienciado a partir do corpo, e não de forma contemplativa como fazem os brancos em seus museus e suas óperas, afinal não existe nada mais branco do que separar corpo de mente.

Os quilombos modernos, que são as favelas, criaram o jovem funkeiro, o menor (para os meninos) e a novinha (para as meninas). Nossas preciosidades que mantém viva a capacidade de celebrar nos bailes de favela e nas gaiolas. O Kit do funkeiro e da funkeira, ostensivo e belo em suas características demonstra o quão importante é se reconhecer, o quanto isso é a construção de uma identidade extremamente elaborada.

Podemos pensar no quanto o dançar funk implica a presença do nosso corpo né? O quanto todas as partes são exploradas nos passinhos, as danças mais sensuais...

E aí volto até atrás, será que o problema é um conteúdo musical que coloca em choque o moralismo de algumas pessoas (coisa que o rock e até a MPB branca fazem também), ou o problema é a juventude negra ter voz alta, ter uma identidade marcada e se reconhecer enquanto grupo? Será que o problema não é porque o funk reafirma a nossa existência?