O partido dos Panteras Negras

14/07/2020

Panteras Negras estrategia e revolução
caderno de textos

POR UMA REVOLUÇÃO ANTIRRACISTA: UMA ANTOLOGIA DE TEXTOS DOS PANTERAS NEGRA 

Seus membros confrontaram políticos, desafiaram a polícia e protegeram os cidadãos negros da brutalidade. Os programas de serviços comunitários do partido - chamados de "programas de sobrevivência" - forneciam comida, roupas e transporte. Em vez de integrar a sociedade americana, os membros queriam modificá-la fundamentalmente. Para eles, o poder negro foi uma revolução global.

Até a década de 1960, os Estados Unidos eram marcados por intensa discriminação racial. Era comum, até esse período, que os negros fossem proibidos de frequentar determinados locais, como alguns restaurantes e lojas. Existiam lugares que separavam banheiros de brancos e negros, e até mesmo bebedouros eram separados dessa forma.

O preconceito nos Estados Unidos era uma "herança" dos períodos da escravidão naquele país. Desde o fim dela, com a Guerra de Secessão, a separação entre negros e brancos na sociedade era evidente. Muitos negros tinham seu direito de votar restrito, a pobreza que eram obrigados a viver era enorme, assim como a violência que sofriam, principalmente pela polícia.

Tudo isso levou ao movimento dos direitos civis, iniciado na década de 1950, quando Rosa Parks negou-se a ceder seu lugar no ônibus para um branco. A partir daí, uma série de protestos das pessoas negras espalhou-se pelos Estados Unidos e grandes lideranças surgiram para exigir o fim da segregação que existia no país.

Martin Luther King Jr. foi um desses nomes. Ele era um pastor batista que morava na Geórgia, sul dos Estados Unidos, e defendia que a luta dos negros deveria dar-se pela desobediência civil e por protestos pacíficos. Existiam também aqueles que defendiam a autodefesa armada por parte dos negros, como foi o caso da Nação do Islã, um grupo que defendia o separatismo dos negros norte-americanos. Nesse cenário de efervescência social é que surgiram os Panteras Negras.

Organização de um partido revolucionário
Huey Newton e Bobby Seale, jovens ativistas políticos em Oakland, Califórnia, ficaram decepcionados com o fracasso do movimento pelos direitos civis em melhorar a condição dos negros fora do sul. Eles viram a brutalidade contra manifestantes dos direitos civis como parte de uma longa tradição de violência policial e opressão estatal. Eles mergulharam na história dos negros na América. Em 1966, eles organizaram jovens afro-americanos pobres, desprivilegiados no Partido dos Panteras Negras.

Como Malcolm X, os Panteras Negras acreditavam que os protestos não-violentos não podiam realmente libertar negros americanos ou dar-lhes poder sobre suas próprias vidas. Eles ligaram o movimento de libertação afro-americano aos movimentos de libertação na África e no Sudeste Asiático.

Não odiamos ninguém por causa da cor. Nós odiamos opressão 

BOBBY SEALE


Breve História dos Panteras Negras

Francisco García Cediel 

O Partido dos Panteras Negras é fundado em Oakland ( Califórnia), em outubro de 1966, dois jovens nacionalistas negros, Huey P. Newton, que tinha então 25 anos e Bobby Seale, cinco anos mais velho. A mente guiadora e a personalidade dominante era de Newton, filho de uma família numerosa que ele definia como de "classe baixa, classe trabalhadora". A princípio os Panteras Negras pareciam pouco mais que outra organização de grupos locais de nacionalistas negros, constituídos por conta própria nos guetos urbanos, que proliferaram em diversas partes. Mas o que lhes deu mais publicidade foram suas patrulhas armadas que abriam caminho pelas ruas de Oakland. A princípios de 1967 se une a organização de Eldridge Cleaver, antigo companheiro de Malcolm X. Por motivo de um enfrentamento armado em outubro de 1967, em que morre um policial, Newton é condenado a 15 anos de prisão. Desde este singular começo, os Panteras Negras se convertem em um formidável movimento político, que em seus primeiros anos de existência haviam fundado umas 30 organizações locais e podiam ter chegado a ter uns 5.000 militantes, ainda que este número se reduziu sensivelmente no final de 1969 em conseqüência de perseguição policial. A ideologia dos Panteras Negras era uma amálgama de nacionalismo e um marxismo-leninismo muito peculiar. O primeiro ponto de seu programa de fundação de dez pontos, adotado em outubro de 1966, diz assim: " Queremos a liberdade. Queremos poder decidir o destino da comunidade negra" Outros pontos exigem o pleno emprego, a educação a libertação de todos os presos negros de todas as prisões. O décimo ponto, o mais nacionalista, advoga por um plebiscito supervisionado pela ONU em que somente participem os cidadãos negros, para determinar o futuro da comunidade negra no que diz respeito a seu destino nacional, mas não determina o que aconteceria se a colônia negra decidisse majritariamente dissolver os vínculos políticos que o ligam aos Estados Unidos. Mas, além de um manifesto de fundação, os principipios ideológicos da Organização se manifestam nas páginas do seu órgão Oficial; The Black Panther, semanário de Bekerley, em cujos primeiros editoriais, redigidos por Newton antes de sua prisão, se mostra a influencia de Fanos, Malcolm X, Mao TSE-Tung e Fidel Castro. Para Newton a " Colonia negra de Afroamérica" tem uma missão única e mundial: " O povo negro da América do Norte é o único que pode libertar o mundo, livrar-se do jugo do colonialismo e destruir a maquina de guerra". Nenhum outro país pode destruir esse " monstro" enquanto essa máquina siga funcionando, " mas o povo negro pode fazer, desde dentro, que funcione mal". A guerra de guerrilhas (guerrilhas urbanas) é o método tático de ação, para instar as massas com seu exemplo de resistência geral. Desde 1967, a ideologia dos Panteras Negras é um hibrido de nacionalismo negro e revolucionário e o que já é um velho amigo seu: o marxismo-leninismo. Como resultado de tal mistura não se parece a nenhum outro nacionalismo negro nem a nenhum outro marxismo-leninismo. Por exemplo, pela importância que lhe dá ao papel do lúmpem-proletariado, a quem considera que pode incorporar na luta. Uma declaração do Chefe do Estado Maior David Hiliard levava o título de " Disciplina lúmpemproletaria frente ao reacionarismo burguês" (The Black Panther, 9 de agosto de 1969) Essa amálgama peculiar de fragmentos de Frantz Fanon, Malcolm X, Mao Tse-Tung, Ernesto Che Guevara e outros é caracterísitico de um movimento que surgindo do nacionalismo negro entra no campo do marxismo. Assim George Murria diz " Nosso pensamento se inspira em Che Guevara, Malcolm X, Lumumba, Ho Chi Minh e Mao Tse- Tung" ( The Black Panther, 12 de outubro de 1968) Huey P. Newton diz: " O irmão Mao tem dito muito bem e seguiremos os pensamentos do Comandante Mao"(The Black Panther, 5 de março de 1969). O Marechal de Campo Don Cox diz: " E aprendemos de todas as pessoas que mantiveram no alto a luz antes: Marx, Lênin, Stalin, Mao, Fidel, Che, Lumumba e Malcolm. E aprendemos de todos aqueles que agora mantém a luz no alto: Ho Chi Minh, eses irmãos e irmãs do Al Fatah, essas guerrilhas palestinas, esses camaradas em armas da Ásia e América Latina" (The Black Panther, 20 de abril de 1969).

Com independencia das contradições intrínsecas de tal mistura, o que caracteriza os Panteras Negras é sua inquestionável vontade revolucionária.

Organicamente o partido mostra também uma composição híbrida. Está encabeçado por um Comitê Central, termo usado tradicionalmente pelo movimento comunista, mas o número um dos Panteras é o "ministro de defesa" Huey P. Newton, na idéia de que a direção máxima tem que residir no comando militar, que simultaneamente desempenha o papel de Chefe Político ( tese de Régis Debray) Na prática, encontrando -se Newton na prisão e Cleaver ( ministro de informação) no exílio, os dois líderes principais são o Chairman Seale e Hiliard ( um ex carregador de nomeado Chefe do Estado Maior) O mais determinante na vertente nacionalista de sua ideologia é o concernente a libertação nacional, que parte do rechaço enérgico e frontal a idéia mitológica do retorno a África, que havia sido um lugar comum do nacionalismo negro norte-americano, e que eles chamam "nacionalismo cultural", advogando pela libertação de e no território dos Estados Unidos. O lado nacionalista dos Panteras Negras faz que se destaque a unidade negra, sendo que o lado marxista-leninista os faz abordar uma revolução social, tanto para brancos como para negros. Ao contrário de outros grupos nacionalistas, os Panteras Negras não acreditam que a " colônia negra" pode libertar-se por si mesma. Se dão conta de que não podiam destruir o capitalismo e instaurar o socialismo na comunidade negra sem fazer o próprio na comunidade branca. Como dizia uma declaração programática: "Tem que haver uma revolução no pais materno branco, dirigida por radicais brancos e brancos pobres, e uma libertação nacional no mundo negro, terceiro mundo colonial aqui, na América do Norte. Não podemos triunfar na colônia sozihos, porque seria como cortar um de do de uma mão. Esta seguiria funcionando. Entenderam? Não, para vencer o monstro há que vencê-lo em sua totalidade". Isto sugere que os Panteras Negras consideram que a revolução nacionalista negra tem que ser parte, o se preferem, há de ir acompanhada de uma revolução social branca mais ampla. A este respeito no verão de 1969 Newton escreve: " O Partido dos Panteras Negras é o partido do povo. Estamos fundamentalmente interessados em uma coisa, em libertar a todo o povo de todoas as formas de escravidão, com o fim de que cada homem seja seu próprio dono", e apostava: " Todos os membros da classe trabalhadora devem apoderar-se dos meios de produção. Aqui, naturalmente, se inclui o povo negro". Em linha com essa tese em julio de 1969 patrocinam uma " Conferencia Nacional em Prol da uma Frente única contra o Fascismo" em Oakland ( Califórnia), do qual saíram comitês locais para combater o fascismo. Pois, bem, em 90% dos assistentes na citada Conferência eram brancos. Mais ainda, o Comandante Seale advogou pela criação de uma Frente de Libertação Norte-americana composta por todos os povos desta nação, até a construção de um partido novo " O novo partido dos Trabalhadores, ou como queiram chamá-lo" Esta aposta estratégica influi decisivamente na demissão de Stokely Camichael, que acusa o partido de contribuir com a " submissão dos negros aos brancos por sua aliança com radicais brancos" (The New York Times, 4 de julio de 1969). Em agosto de 1969, o lider máximo dos Panteras Negras, Newton, se refere a população negra da América do Norte como "minoria nacional" e, diferencialmente, como uma "minoria étnica", defendendo a inviabilidade de uma América do Norte negra segregada formada por 5 ou 6 Estados, vizinha de um resto de Estados Unidos capitalista e imperialista. Em certo modo e com suas contradições, os Panteras herdaram o legado ambíguo de Malcolm X, avançando na direção de uma revolução social mais que uma revolução puramente nacionalista. Ao somar o socialismo ao nacionalismo tiveram que ampliar seus horizontes fazendo aproximações com os brancos em forma de aliança ou coalizão. Chegados a este ponto temos de reflexionar a cerca da importância de como valorizar na Europa de 2008 uma experiência como a dos Panteras Negras nos anos 60 do século passado na América do Norte. Mais além das evidentes diferenças, derivadas das circunstancias de que brancos e negros foram a América do Norte em condições muito diferentes, ainda que ambos coletivos estavam ali respondendo a necessidades produtivas de expansão e acumulação capitalistas, temos de convir que o caráter crescentemente multicultural e multirracial da Europa gera problemas e tenções que atravessam o étnico e o social. As chamadas revoltas dos suburbios da França faz poucos anos é um fenômeno que deve nos fazer meditar sobre taes questões. Se a ele unimos a lúmpem-peoletarização de um setor da população, derivada da estrutura social capitalista de nosso entorno geográfico e temporal, unido a uma crise econômica que segundo a maioria dos analistas tão somente acaba de começar, que instala na marginalidade um setor não só mas fundamentalmente imigrante, talvez devemos analisar como impulsar a transformação social unindo velhas e novas contradições.



Desde a sua fundação, os Panteras Negras possuíam um programa, conhecido como Programa de Dez Pontos, que delineava o que eles queriam e no que acreditavam. Voltado, a princípio, para o combate à violência policial, o grupo desenvolveu-se e recebeu novas influências ideológicas. As principais influências dos Panteras Negras eram Frantz Fanon e Karl Marx.

Com o tempo, o grupo engajou-se pela realização de ações sociais e acabou assumindo uma plataforma abertamente marxista, sendo, portanto, crítico ao capitalismo. Os Panteras Negras também defendiam o estabelecimento de uma sociedade autogestionária, na qual os pobres (sobretudo os negros) governariam a si mesmos.

O Programa de Dez Pontos dos Panteras Negras acabou sendo publicamente divulgado em 1967, e nele constavam as seguintes exigências|1|:

O QUE QUEREMOS

  1. Nós queremos liberdade. Queremos poder para determinar o destino de nossa comunidade negra.
  2. Queremos emprego pleno para nosso povo.
  3. Queremos o fim da roubalheira dos capitalistas brancos contra a comunidade negra.
  4. Queremos casas decentes para abrigar seres humanos. Queremos educação decente para nosso povo. Uma educação que exponha a verdadeira natureza da decadência da sociedade americana. Queremos que seja ensinada a nossa verdadeira história e nosso papel na sociedade atual.
  5. Queremos educação decente para nosso povo. Uma educação que exponha a verdadeira natureza da decadência da sociedade americana. Queremos que seja ensinada a nossa verdadeira história e nosso papel na sociedade atual.
  6. Queremos que todos os homens negros sejam isentos do serviço militar.
  7. Queremos um fim imediato da brutalidade policial e dos assassinatos de pessoas negras.
  8. Queremos liberdade para todos os negros que estejam em prisões e cadeias federais, estaduais, distritais e municipais.
  9. Queremos que todas as pessoas negras levadas a julgamento sejam julgadas por seus pares ou por pessoas das suas comunidades negras, tal como definido pela Constituição dos Estados Unidos.
  10. Queremos terra, pão, moradia, educação, roupas, justiça e paz.

A autodeterminação dos negros, o acesso a itens básicos de sobrevivência e o fim da violência contra eles eram as grandes exigências dos Panteras Negras.

Para servir as pessoas
Os capítulos locais dos Panteras, geralmente liderados por mulheres, focavam a atenção nos "programas de sobrevivência" da comunidade. Eles organizaram um programa de café da manhã gratuito para 20.000 crianças por dia, bem como um programa de alimentação gratuito para famílias e idosos. Eles patrocinaram escolas, escritórios de assistência jurídica, distribuição de roupas, transporte local e clínicas de saúde e centros de testes de células falciformes em várias cidades. Essas atividades forneceram ajuda concreta às comunidades de baixa renda e atraíram apoio para os Panteras.

Auto-Defesa

Os Panteras decidiram usar seu direito constitucional de portar armas e implementar a filosofia de auto-defesa de Malcolm X, patrulhando a policia. Eles fizeram isso numa época em que a severa brutalidade policial era comum - a policia espancava e matava negros ao acaso. Até mesmo se recrutava policiais do sul racista para virem trabalhar nos guetos do norte. Em uma ocasião, enquanto patrulhavam, eles testemunharam um oficial parar e perseguir um jovem. Os Panteras saíram de seu carro, foram até a cena e ficaram assistindo, suas armas bem à mostra. Raivosamente o policial começou a questiona-los e tentou intimida-los com ameaças de prisão. Mas Huey P. Newton tinha estudado a lei intimamente e podia citar cada lei e regulamento judiciário relevante para sua situação. Huey ficou lá com um livro da lei em uma mão e uma arma na outra e falou aos "pigs" sobre seu direito constitucional de portar uma arma, desde que não estivesse escondida. Disse que cada cidadão tinha o direito de observar um oficial de policia realizar seu dever desde que mantivesse uma distância razoável. E ele lhes contou sobre a decisão da Suprema Corte que definia esta distância. Uma multidão se reuniu e assistia toda esta cena com assombro. Os Panteras deixaram claro que eles não estavam procurando um tiroteio e que apenas usariam suas armas em auto-defesa. Eles tomaram a oportunidade para distribuir cópias de seu programa de 9 pontos, informar ao povo sobre a ideologia dos Panteras e convida-los às suas reuniões políticas. Enquanto isso, o perturbado e nervoso policial pegou a oportunidade de escapar dali. A arma tinha um enorme efeito psicológico, tanto na comunidade negra quanto na policia. Para a policia, ela revertia o medo que eles tanto gostavam de criar nos outros. Mas para a comunidade negra, ela acendia sua imaginação, as pessoas se sentiam encorajadas vendo irmãos e irmãs negras protegendo seus interesses.

Defendendo reformas da comunidade
Embora criado como uma resposta à brutalidade policial, o Partido dos Panteras Negras se expandiu rapidamente para advogar por outras reformas sociais. Entre as iniciativas da organização, eles fizeram campanha pela reforma penitenciária, realizaram campanhas de registro de eleitores, organizaram programas gratuitos de alimentação que incluíam brindes alimentares e um programa de café da manhã escolar em várias cidades, abriram clínicas de saúde gratuitas em uma dúzia de cidades que atendiam milhares de pessoas que não podiam pagar, e criou a Freedom Schools em nove cidades, incluindo a notável Oakland Community School, liderada por Ericka Huggins de 1973 a 1981.

Mulheres nos Panteras 

O papel das mulheres dentro dos Panteras foi uma área com muitos problemas. Numa época, as mulheres abrangiam 70% da militância da organização. Mas todas as posições dirigentes eram ocupadas por homens. Isto não é pequeno, porque ilustra os diferentes papeis que homens e mulheres jogavam. Parece que muitas mulheres eram confinadas a papeis de secretária, administrativos, de creche e outros tradicionais, enquanto os homens eram encorajados a desenvolver as idéias políticas, e qualidades de orador e liderança. Também alguns irmãos se queixavam de que não receberiam ordens de uma mulher! Em outro caso se descobriu que acusações de ser uma contra-revolucionária eram espalhadas sobre uma mulher apenas porque ela não queria dormir com alguém. Estes problemas teriam afastado os Panteras de toda uma camada de mulheres negras que não estavam preparadas a tolerar este absurdo. Todavia, temos que saber que atitudes sexistas não eram únicas aos Panteras - é algo que ocorre a todas as organizações, porque está relacionada à natureza opressiva desta sociedade e o modo como ela explora as mulheres. Os Panteras tomaram medidas contra estas atitudes, mas não foram plenamente bem-sucedidos - igualdade no partido nunca foi conseguida. E você não pode ter uma verdadeira organização comunitária, combatendo a opressão da sociedade, se as mulheres são oprimidas dentro de sua organização. A militância dos Panteras era de 5,000. Isto parece muito pouco, quando se considera tudo o que foi conseguido, mas a razão é que estes 5 mil membros eram todos militantes integrais! Você não podia ser um membro da organização a menos que estivesse desempregado ou preparado a sair do emprego. Este é um sinal do tremendo comprometimento que os Panteras inspiravam, eles tinham 5 mil militantes em tempo integral, mas eles definitivamente teriam uma militância muito, muito maior, se permitissem estudantes e pessoas que trabalhavam a se unir. De fato, eles se separaram de centenas de milhares de pessoas que os teriam apoiado. Isto também os dividiu do resto da comunidade. 

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RAÇA, GÊNERO E REVOLUÇÃO: O Empoderamento Feminino no Partido dos Panteras Negras


Algumas poucas mulheres conseguiram posições de liderança, Vanetta Molson dirigiu os programas de sobrevivência de Seattle. Lynn French em Chicago e Audre Dunham em Boston eram líderes locais inspiradores. Elaine Brown tornou-se a presidente nacional em 1972.

Grupos revolucionários de trabalhadores negros

Naquela época, havia vários grupos de trabalhadores negros, como o DRUM (Dodge Revolutionary Union Movement), o DODGE em Detroit e o ELARUM (Eldron Avenue Revolutionary Union Movement). Eles organizaram muitos trabalhadores revolucionários negros. Embora tivessem alguns grupos negros nos sindicatos, os Panteras não desenvolveram suficientemente este aspecto do trabalho. Isto era de particular importância, porque a classe trabalhadora negra era fundamental na luta pela libertação negra. Os Panteras foram um dos poucos grupos que entendiam que toda a base da sociedade americana tinha que ser transformada. Foi esta compreensão que lhes deu uma perspectiva revolucionária. Mas apenas isto não garantia nada. A clareza de idéias, que permite o desenvolvimento de uma estratégia coerente e efetiva é essencial para realizar a tarefa de derrubada do capitalismo. Argumentamos que haviam muitas idéias confusas no Partido dos Panteras Negras. Alguns acreditavam que podiam se desenvolver com base numa luta conduzida por uma pequena minoria armada e não tinham uma estratégia de construir uma organização de massas que pudesse ser sustentada por um longo período. Huey Newton diz em Revolutionary Suicide: "Mas logo descobrimos que armas e uniformes nos separavam da comunidade. Éramos visto como um grupo militar ad hoc, agindo por fora da estrutura da comunidade e radica demais para ser parte dela. Talvez algumas de nossas táticas na época fossem extremas; talvez puséssemos ênfase demasiada na ação militar". Isto era particularmente importante, já que eles alcançaram seu auge na época do refluxo do enorme movimento pelos direitos civis. Se a organização tivesse se desenvolvido com uma perspectiva de mais longo prazo, os Panteras Negras estariam numa posição de se colocarem à frente de uma ressurgência massiva de radicalismo entre a população negra, ou mesmo na sociedade americana mais ampla. Isto, acima de tudo, mostra a necessidade para uma clara previsão de como os eventos irão se desdobrar na sociedade. É por isso que um cuidadoso e disciplinado estudo dos eventos é um aspecto importante na construção de perspectivas de qualquer organização revolucionária. Os Panteras nos deixaram com uma inestimável experiência. Sua dedicação, vontade e bravura em face do que poderia ter parecido obstáculos insuperáveis é um exemplo que qualquer ativista ou revolucionário negro sério deve se orgulhar de seguir. Eles foram o mais alto ponto do movimento pelos direitos civis. 

O FBI

O sucesso das atividades políticas e programas comunitários dos Panteras e seu enorme crescimento em influência e militância logo os colocaram sob o fogo do estado americano. O FBI intensificou o COINTELPRO (Programa de Contra-Inteligência) contra eles. Quase todo escritório no país foi atacado em algum ponto. Em Chicago, todas as provisões de comida para o programa de café da manhã foram queimadas. Durante um ataque na primavera de 1968, Bobby Hutton, o primeiro membro do partido, saiu com as mãos levantadas. A policia atirou nele na cabeça e o matou. Os ataques se tornaram ainda mais violentos em 1969. Em 4 de dezembro às 1 da madrugada, a policia arrebentou o apartamento de Fred Hampton e abriu fogo no quarto onde ele dormia com sua namorada grávida. Outro Pantera gritou que uma irmão grávida estava no quarto e a policia parou o tiroteio. Deborah Johnson lembra: "Um dos policiais agarrou meu roupão, o arremessou e disse "veja só, temos uma dona aqui‟. Outro homem agarrou-me pela cabeça e me jogou na cozinha. Escutei uma voz em outra parte do apartamento dizendo "ele ainda está vivo‟, ou "ele ainda chegou a tempo‟. Então ouvi mais tiros. Uma irmão gritou da frente. Então os tiros pararam. Escutei alguém dizer "ele está tão bem quanto morto agora‟". Apenas em 1969, 25 membros dos Panteras foram mortos. Mas as operações do FBI foram além. Ao lado das constantes prisões de seus membros, que interrompia o trabalho da organização e a esgotava financeiramente, o FBI infiltrou o partido e fabricou rivalidades e disputas entre seus diferentes membros. Hoje, pode-se explicar o fim dos Panteras pelas operações vitoriosas do FBI. Sem dúvida, elas puseram uma enorme tensão sobre a organização, mas há muitos países no mundo onde a oposição política enfrenta uma repressão ainda maior do estado. Sem subestimar as dificuldades, elas não podem explicar inteiramente a queda dos Panteras. Há vários fatores que contribuíram para isto.

Fim dos Panteras Negras

O Partido dos Panteras Negras chegou ao fim oficialmente quando foi dissolvido, em 1982. Seu fim, no entanto, foi resultado de um longo processo de desgaste causado pelo Federal Bureau of Investigation (FBI), o departamento responsável pela investigação criminal nos Estados Unidos. O envolvimento do FBI fez com que os Panteras Negras fossem incluídos no Programa de Contrainteligência.

Esse programa visava desarticular e enfraquecer movimentos considerados subversivos, principalmente aqueles com uma plataforma progressista. Por meio dele, o FBI infiltrou agentes nos Panteras que os enfraqueceram e desmoralizaram. Além disso, o FBI conseguiu plantar dissidência no interior do partido.

A violência contra os Panteras Negras também aumentou consideravelmente, e dezenas de membros do partido foram mortos todos os anos. Muitos eram presos, e a quantidade de processos que o partido teve de enfrentar na justiça fez com que enfrentasse também graves problemas financeiros.

Por fim, desentendimentos e problemas de liderança fizeram com que o partido fosse enfraquecido definitivamente na década de 1970, levando-o à sua dissolução, em 1982.