O mesmo que lamenta a morte é o mesmo que a provoca

19/05/2020


Terça, dia 28 de abril, foi atualizado o número de mortos por COVID19. Segundo as informações divulgadas, pelo Ministério da Saúde, superamos a China em mortes confirmadas pela respectiva doença: são mais de cinco mil. O que tem a ver o presidente da República? Ele mesmo nos questiona, ao mesmo tempo que afirma "E daí? Lamento. Quer que eu faça o que? Eu sou messias, mas não faço milagre." Os pronunciamentos presidenciais são carregados de contradições. Para compreender a postura do chefe do executivo, recorremo-nos ao filósofo Achille Mbembe e ao seu ensaio intitulado como "Necropolítica". Em síntese, o autor nos provoca a refletir sobre um Estado que exerce sua soberania através da política de morte como uma forma de controle social. Isto é, mais do que "deixar viver ou deixar morrer", estamos falando de um estado que dita o que é descartável e, portanto, pode morrer.
A partir dos pensamentos deixados por Frantz Fanon e Michel Foucault, Mbembe nos diz que "[...] a expressão máxima da soberania reside, em grande medida, no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer". O presidente da República nos (re)lembra, em cada pronunciamento, a sua opção pelo extermínio. Nos dizeres de Silvio Almeida (2019) a necropolítica "instaura-se como a organização necessária do poder em um mundo que a morte avança implacavelmente sobre a vida. A justificação da morte em nome dos riscos à economia e à segurança torna-se o fundamento ético dessa realidade". Portanto, Jair Bolsonaro não só lamenta a morte, como ele opta por ela. Seu plano genocida está presente nas políticas de segurança pública, no apoio ao regime militar, nos discursos racistas, machistas e preconceituosos e, sobretudo, nos discursos que minimizam a pandemia mundial. A estrutura desse governo funda-se em duas opções (intencionais): ou manda matar (ação) ou deixa morrer (omissão). Assim, as falácias de Jair Bolsonaro evidenciam o desprezo pela vida e, clamam pela relativização: afinal de contas, "o Brasil não pode parar".