O calor do Brasil que só a branquitude sente

13/12/2020

Desconstruindo o mito da cordialidade brasileira 

Foto montagem : Pedro Lima
Foto montagem : Pedro Lima

A formação dos Estados modernos, no mundo, foi uma prerrogativa para a expansão do capitalismo no século XX. Cada nação, precisando lidar com os antagonismos internos, moldou a reinterpretação da própria história, baseado numa narrativa capaz de dar sentido e de orientar o modelo das práticas sociais entre os indivíduos. Neste contexto, a supremacia branca no Brasil criou novos significados para velhos arranjos coloniais que permaneceram nesta nova nação como ideologia de controle dos corpos subalternos. Hoje, ainda, confrontamo-nos com um entendimento da nossa sociedade pautado pela particularidade do olhar hegemônico do homem branco. E cá estamos, diante do mito cordialidade brasileira! Afinal, cordial para quem?

Ao longo da minha vida, ouvi diversas vezes a afirmação de que nós, brasileiros, somos um povo caloroso e cordial. Nunca fui capaz de analisá-la profundamente, já que não havia respaldo de uma vivência em outra sociedade. Foi quando cheguei à Europa que me confrontei mais a fundo com essa perspectiva. Como a minha trajetória no Brasil fora marcada por violência e racismo, de que povo acolhedor, afinal, esses europeus tanto se referiam? Foi convivendo com os europeus e analisando suas interações com os brasileiros que dei-me conta de como este olhar era nada mais que uma visão do mundo sob o véu da colonialidade. E mais, que a mesma lόgica também se reproduz dentro na sociedade brasileira.

Este corpo, atravessado pela violência racial da branquitude, e até de nossos irmãos e irmãs contaminados pela premissa de uma subjetividade branca, desconhece a cordialidade. Foi vendo irmãos e irmãs maltratando nossos iguais, enquanto chamam homem branco de doutor, que entendi que a ideia de cordialidade estava entrelaçada à hierarquia entre seres humanos. Diferente de um ser branco, a experiência de homens negros e mulheres negras, enquanto sujeitos na margem, é, então, atravessada pela indiferença, solidariedade, desprezo, fraternidade, mas jamais pela cordialidade. Cordialidade é reverência à brancura.

Portanto, cordialidade é uma relação estabelecida pela hierarquia colonial entre seres humanos, tendo o quesito racial como principal elemento estruturante, embora não desconsidere critérios de classe e de gênero. A expressão da cordialidade segue o fluxo em único, das margens para o centro, tendo o homem branco europeu como elemento centralizador desta relação.

Certo dia, no ônibus , ouvi uma francesa sentada atrás de mim, contando ao seu amigo sobre sua experiência durante as férias em Belém, estado do Pará. Ela relatava ao amigo como os brasileiros eram surpreendentemente calorosos. Hospedada numa casa bem humilde, ela contou que a dona da casa optou por dormir no chão para ceder a própria cama à turista francesa. Quem de vocês, mulheres negras e homens negros, vivencia no cotidiano esse tipode gentileza? É privilégio branco.

A ideologia colonial também define os papéis de sujeito cordial e sujeito glorificado no contexto geopolítico brasileiro. Observando comportamentos da branquitude sulista e sudestina na região norte e nordeste, é visível a reprodução das mesmas dinâmicas de dominação material e simbólica. As regiões norte e nordeste se tornaram, então, um espaço de manifestação do fetiche colonizador por parte desta branquitude, submetendo principalmente a população negra e indígena à glorificação do seu pretenso status de superioridade baseado na brancura e na ideia de desenvolvimento econômico.

A cordialidade também se torna papel do branco brasileiro num contexto global. A aliança com a colonialidade legitima o privilégio do branco brasileiro apenas nos limites do seu território geopolítico. Ou seja, as relações de poder determinadas pela ordem da hierarquia colonial, embora conceda uma posição hegemônica do branco brasileiro face à população negra e indígena local, irá, no entanto, submeter sistematicamente este sujeito à posição de subalternidade diante do europeu. É a contrapartida estabelecida pelo pacto com a colonialidade. Assim, aqueles que recusam o lugar de cordial, mas são incapazes de desconstruir o privilégio branco, se veem numa luta inalcançável pela autoafirmação e superação do ideal branco. Acreditem, a mesma branquitude que nos olha de cima, baixa a cabeça em terras europeias. Afinal, ninguém estaria acima do sujeito europeu.

No Brasil, é imperativo a concepção de um novo projeto de nação que rompa em definitivo com a colonialidade e a supremacia branca. É a partir do olhar de quem ocupa as margens que seremos capazes de desenvolver ferramentas revolucionárias que nos permitam superar a crise do nosso modelo atual. Do nosso olhar opositor é que emerge a desconstrução de narrativas que dão sentido à dominação do nosso povo. Este texto é, acima de tudo, um apelo à valorização do nosso olhar e à libertação da consciência dos nossos irmãos e irmãs. Este texto é um convite à descolonização dos nossos corpos.

Por Pedro Lima, bacharel em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco