“Meu avô matou um cara na Itália e fugiu para o Brasil. Kkkkkkkkkk”. Sobre os absurdos da branquitude.

04/01/2021

Ao ler o livro "Entre o encardido, o branco e o branquíssimo: branquitude, hierarquia e poder na cidade de São Paulo", de Lia Vainer, me tocaram as entrevistas que a autora realizou com pessoas brancas na capital paulistana e o fato de acreditarem que ser branco é atributo moral, superior às outras raças. Alguns dizem que ser branco é ser trabalhador, tranquilo, não procurar confusão e ser esforçado. Essas características atribuídas a si mesmo e ao próprio grupo racial veem acompanhas da atribuição aos negros enquanto preguiçosos, que não se esforçam, barulhentos, criminosos e que só se importam em dançar e cantar.

Foi aí que acessei a memória de um episόdio que vivenciei aqui na França há um ano atrás, na cidade de Lyon, onde moro atualmente. Fui visitar uma brasileira e lá estava outro brasileiro, descendente de avô italiano. O cara dominava a conversa e canalizava toda atenção para si. A um certo ponto, ele contou que seu avô matara um homem na Itália e por causa disso tivera que fugir para o Brasil. Logo depois dessa revelação chocante (sό para mim, única negra), caiu na gargalhada. Os demais também sorriram. Eu, séria, com cara de "geração mimimi", fixei-o incrédula com a naturalidade e até orgulho com que contou essa histόria. Por respeito à dona da casa, contive-me, mas por dentro, uma grande raiva gritava para sair:

Que licença é essa que branco tem pra dizer que o avô matou uma pessoa sem provocar estupor? Que falta de escrúpulos é essa em poder contar publicamente algo do gênero sem ser repreendido e sem sentir vergonha? Porque branco se vangloria de um crime cometido por sua raça?

Fiquei imaginando se eu contasse lá em Santa Catarina ou no interior de São Paulo, para a branquitude que ostenta cidadania italiana, que meu avô negro, nordestino, matou um cara. Só imaginem! Se meu avô negro tivesse feito algo do tipo, eu ainda carregaria o estigma de neta de assassino.

A branquitude não se enxerga, muito menos que o que ela faz é crime, é indecente, é baixo, é vulgar e canalha, porque ela, sό por ser branca, tem um Green Card na sociedade que lhe permite circular livremente, dar "carteiradas", falar o que bem entende e chegar nos locais estufando o peito porque sabe-se dona do pedaço. Ahhh, a branquitude não tem um pingo de dignidade! Mas estufa o peito, levanta a voz, aponta o dedo contra a população negra, moradores das favelas e das periferias, colocando-se como arauta da moralidade. É essa mesma branquitude que se autodefine "cidadã de bem", "engenheiro e muito melhor que você", "advogada internacional", "desembargador com contatos"...

James Baldwin diz que "os brancos estão presos na histόria que eles não entendem", podemos também dizer que estão presos nessa autoimagem de bons, nobres, superiores, civilizados, a ponto de não enxergarem-se como realmente são. Chega a ser patético o contraste com o que pensam de si e com a verdade. A crença na própria superioridade e na falta de limites é tão arraigada que mesmo colocando-lhes diante da verdade, ela sό consegue ver a sombra, negando-a veementemente.

A branquitude é uma distorção de si e da realidade, é a versão mais baixa e vulgar da histόria da humanidade e enquanto continua se vendo nos seus pares, essa imagem distorcida, falaciosa, continuará se reproduzindo. Eu gostaria, com muita honestidade, que ela se confrontasse conosco, negros e negras, e que aceitasse sem véu, sem dissimulação e autodefesa o confronto que temos a lhe oferecer. Ela só teria a ganhar, mas para isso precisaria abrir mão do privilégio, o que dificilmente aconteceria.

E finalizo fazendo um convite às pessoas brancas: falem com a gente, dialoguem mais com esse "outro" que vocês criaram, pois sabemos a verdade. E não é prepotência não, é porque a gente vos olha de fora, vocês só se veem no espelho.

Fabiane Albuquerque é doutora em sociologia

Instagram: fabiane474