Lider em movimento

13/01/2021

Já é evidente que rap, revolução e causa social tem tudo a ver e o BK' é uma das pessoas que podem representar muito bem isso. Tudo já começa no nome dele Abebe Bikila Costa Santos, que foi escolhido em homenagem ao atleta que se tornou o primeiro negro africano a ganhar Medalha de ouro em olimpíada.

O atleta Abebe simplesmente bateu recordes e se tornou um dos maiores maratonistas da história, ah um detalhe, correndo descalço. Acontece que a Adidas, que era patrocinadora oficial da Olimpíada, tinha poucos pares de tênis para Bikila escolher. Como ele não achou nenhum confortável e decidiu correr descalço mesmo, do jeito que ele costumava treinar na Etiópia e completou os 42km em apenas 2h15. (Coincidência ou não, hoje o artista BK' é patrocinado pela Adidas)

Voltando ao rapper BK' acho importante destacar que ele já foi criado em um ambiente de resistência, Dona Ana, a mãe do artista, é professora e milita no movimento negro desde jovem. Muitas vezes ele diz que a inspiração que teve para fazer a diferença no mundo veio dela.

O líder em movimento pode ser um reflexo da sociedade e vice-versa, falo isso me baseando muito na forma que o álbum foi criado. Apesar de abordar muitos temas que foram trazidos em 2020 com a quarentena, como o "boom" do movimento negro e tags de Vidas Negras Importam, ele na verdade foi escrito em 2019. E até mesmo o documentário do processo criativo foi gravado antes da pandemia.

São em momentos como esse que podemos entender que o movimento nunca enfraqueceu, ele segue vivo em diversas áreas e os problemas que vivemos hoje são totalmente previsíveis. Depois de tudo que aconteceu nesses 500 anos e a maneira que a população negra e periférica continua sendo tratada fica difícil não se revoltar e passar a refletir sobre o assunto. No álbum essa reflexão e por vezes denúncia é feita em 10 faixas, que falam sobre diversos aspectos da vida, desde a relação da área periférica, amizades, amores, poder e até mesmo a relação familiar.

De acordo com BK' o objetivo do álbum é unir e criar novos líderes, e traz exemplos de lideranças como Malcolm X, Martin Luther King, Thomas Sankara, além de figuras brasileiras como Abdias do Nascimento e Marielle Franco. Em uma entrevista o rapper disse: "Eu acredito numa pessoa liderando, mas também acredito na troca coletiva, com todo mundo construindo um movimento junto. Porém, a ideia do disco é a soma dos dois. Dá para ter um cara puxando o bonde, mas com uma comunidade em volta ajudando e guiando esse trabalho". Essa ideia de coletivo fica bem explícita em diversa partes do disco como na faixa Pessoas onde ele diz: "Melhor que um líder sábio, é só um povo sábio".

O disco começa na faixa "Movimento" e termina em "Universo", isso funciona como um caminho, como se o personagem saísse de uma batalha pra uma calmaria. Se o álbum for escutado na ordem inversa a sensação será a contrária e nas palavras do BK' "De trás para frente, o personagem começa se preparando para a batalha e termina nela. E essas duas coisas são dois possíveis movimentos de um líder".

Nós estamos em uma batalha constante, batalha essa que trouxe em 2018 "O menino que queria ser Deus" do Djonga e "AmarElo" do Emicida em 2019. 2020 mostrou o real significado de resistência e a necessidade de uma luta pela igualdade, pontos refletidos no último trabalho do BK'.

E aí fica a questão, seremos nós líderes em movimento?