Hemetério José dos Santos

15/10/2020

Conheça a história de Hemetério José dos Santos, o professor negro que ousou combater o racismo e ensinar sobre história e cultura negra durante o período em que a escravidão era legal no Brasil

A história do Brasil é marcada pela trajetória de muitos professores que foram fundamentais em sua tarefa de ensinar e de defender a importância do acesso à educação.

Em meio a tantos nomes de grandes educadores, destacamos a figura de Hemetério José dos Santos, um professor negro que ousou ensinar a importância do combate ao racismo e da busca por uma democracia racial em pleno período escravocrata.

Hemetério nasceu em Codó, no Maranhão, em 3 de março de 1858. Filho de uma mulher escravizada e de um Major da região, só foi reconhecido por seu pai aos cinco anos de idade. Não há muitas informações sobre a sua infância, mas é fato que ele teve acesso à educação formal e frequentou bons colégios.

Mudou-se para o Rio de Janeiro aos 16 anos, onde concluiu seus estudos e se tornou professor explicador de francês no Colégio Pedro II. Em 1890, assumiu nesse colégio a função de professor adjunto e, em 1898, foi designado professor vitalício de português, recebendo também a patente de Major do Exército. Naquela época, ele era o único professor negro do Colégio Militar do Rio de Janeiro e a questão racial tornou-se um dos elementos fundamentais em sua atuação.

Casou-se com a também professora Rufina Vaz Carvalho dos Santos e atuou como professor da Escola Normal do Distrito Federal. Ao longo de sua vida, produziu um importante número de publicações ligadas a questões raciais e à educação da parcela mais pobre da população. Publicou cartas, artigos, conferências, gramáticas, livros didáticos e de poesias, participou ativamente do movimento abolicionista e da luta em defesa da educação do negro como forma de inserção social.

Além de sua competência acadêmica e do comprometimento com que exercia suas funções docentes, Hemetério destacou-se na defesa de um projeto educacional que incluísse o negro, pregando a democracia racial e um ensino público que formasse cidadãos capazes de modificar a realidade na qual estavam inseridos. Para ele, a democracia dependia de um ensino de qualidade e a população negra deveria ser incluída na sociedade através do acesso ao ensino.

Ao lado de outros abolicionistas, Hemetério tornou-se uma importante voz na luta contra a escravidão. Ele sentiu na pele o peso do racismo e fez da educação sua arma de combate à exclusão do negro no Brasil. Para ele, a desigualdade social só seria combatida com educação e com a formação política das classes populares. Em suas análises, ele defendia que o racismo científico era um mal a ser combatido e que não havia o menor sentido em defender teses que pregavam a inferioridade dos negros.

Seus textos falavam sobre a importância de se buscar a igualdade entre homens e mulheres, a inclusão de questões raciais em livros didáticos, a importância da existência de cursos noturnos e da construção de escolas primárias próximas a fábricas, para que os filhos dos trabalhadores pudessem estudar.

Hemetério José dos Santos morreu em 1939, mas deixou um importante legado de luta pela educação e pela igualdade racial, fazendo do ensino uma tarefa que vai muito além da apresentação de conteúdos previstos no currículo.

Apesar de sua erudição, ele teve que lidar com os obstáculos profissionais e intelectuais que a sua cor lhe trouxeram, mas encampou esse desafio, assumindo a sua negritude e levando para os seus artigos nos jornais, para os seus livros e poemas uma visão muito crítica e combativa do racismo e do preconceito que imperavam nas primeiras décadas da República. Hemetério levantou como uma de suas principais bandeiras o reconhecimento do papel do negro na formação da nação e da intelectualidade do país e fez uso de sua voz em todas as ocasiões possíveis para a defesa dessa visão.

Texto - Adriana de Paula e Joel Paviotti Via. Facebook