Eterno quarto de despejo? Que se respeite o legado e a história de Carolina de Jesus!

30/06/2021

Nos últimos tempos, o cenário cultural brasileiro está sendo sacudido pelas declarações das netas de Carolina Maria de Jesus (1914-1977) em relação as suas condições de apartadas das benesses geradas pelo espólio cultural de sua avó(2). Relacionando essa situação por elas vividas, como se fosse uma continuação direta e contemporânea de "Quarto de despejo", em que as ocorrências de exploração, opressão, racismo e machismo relatadas por sua avó, continuam vivas e atuantes em meio aos nossos conjuntos - formais e informais - de relações sociais.

Em uma situação de disputas judiciais e trâmites legais, o que salta aos olhos é como o espólio cultural (livros e escritos) e simbólico (trajetória de vida) de Carolina de Jesus não são usufruídos pelas netas, suas herdeiras diretas. Absolutamente ciosas e cuidadosas em preservar e valorizar cada vez mais a vida e obra de sua avó, mas sem poder de voz algum para interferir, para nem ao menos sugerir os rumos que devem definir o uso do espólio, cada vez mais buscado, de Carolina. Ausentes, apartadas, da geração de renda, do giro de capital financeiro, que tais ações acabam por constituir, vivendo em uma miserabilidade social, com histórias e narrativas de adversidades e sofrimento idênticas a da grande escritora mineira.

Numa sociedade estruturada pela exploração do trabalho escravo e desumanização daqueles considerados enquanto inferiores por nossas elites, essas caraterísticas de exclusão e segregação racial e social, ganham contornos mais cruéis e violentos quando contextualizados a vida das mulheres negras no Brasill. Seres humanos coisificados, objetificados enquanto reféns para todo e qualquer forma de uso e abusos pelas senhorias elitistas e racistas, que construíram e definiram um conjunto de valores sociais, de códigos - não necessariamente escritos ou institucionalizados - que se perpetuam e são reproduzidos de geração em geração, em que ocorre uma naturalização da inferioridade humana das populações não brancas, uma hierarquização racial e social, perpassada pela questão do machismo, em que as populações afrodescendentes sempre ocupando a base primordial dessa pirâmide, com as mulheres negras sendo a representação viva e histórica dessa nossa origem e herança escravocrata.

O que muito nos explica o uso do conjunto da obra de Carolina, como se não houvesse toda uma gama de relações familiares, uma rede de pessoas diretamente envolvidas com um espólio dos mais importantes e significativos da cultura brasileira, que é gerenciado, utilizado a revelia de suas herdeiras. Mesmo que, algumas medidas em relação a esse uso tenham sido autorizadas, em outro contexto, pela irmã de Carolina de Jesus, não pode haver esse número cada vez mais infinito de (re)publicações, antologias, documentários, pesquisas, seminários, conferências, homenagens com as suas netas sendo completamente ignoradas em suas reivindicações, direitos e, principalmente, em suas existências. Como se elas não fossem nada, não existissem ou tivessem alguma significância.

Tal situação é impensável em qualquer forma ou tipo de herança material ou imaterial relacionado a um conjunto de obra que deveria ser usufruída pelos herdeiros diretos da autoria em questão. Não estamos questionando as burocracias inerentes aos processos sobre uso e frutos acerca de espólios durarem anos e mais anos, mas estamos sim

destacando, enfatizando que existe uma preocupação legal em se proteger ao máximo possível a obra de uma pessoa, em respeito a sua dignidade humana, em respeito a sua história de vida constituída que acabou por dar origem ao seu legado material e imaterial, sendo por isso sempre tentado a preservação máxima dos direitos hereditários pelos familiares mais próximos ou designados de um espólio. Não se movendo uma peça, não havendo nenhum uso indevido deste por parte de qualquer pessoa ou instituição, sob risco de sofrer alguma forma de intervenção judicial, enquanto as situações em contrário não forem judicialmente ajuizadas. Essa é a norma, esse é o padrão constituído e que direciona os processos legais para compra ou autorização de usos acerca dos direitos autorais de qualquer obra. Mas não quando se relaciona a produções culturais ou intelectuais, a autorias relacionadas a pessoas ou entidades negras. Parece haver uma sanha predatória, um contumaz desrespeito, como se não houvesse a necessidade de seguir os padrões, de se respeitar as regras e a lei, com "esse tipo de gente", uma herança comportamental senhorial, de origem estamental, que sempre se faz manifestar em tais situações. Sendo o caso do uso da obra de Carolina de Jesus, exemplo basilar desta realidade.

Nos últimos, pelo menos, dez anos o que não falta são eventos e produtos dos mais variados relacionados ao uso da obra e imagem de Carolina de Jesus, muitos destas atividades utilizando como mote justificativo o seu compromisso pelo respeito a "obra e legado da autora", assim como a busca em "dar voz" e "visibilidade" ao legado da autora mineira. Mas que respeito é esse em que não se leva em consideração nem a existência de suas netas, que não lhe repassam os frutos financeiros e de prestígio que a obra da avó gera para terceiros? Fora o fato que "dar voz" e "visibilidade" a grupos sociais historicamente marginalizados em geral disfarçam um sentimento de superioridade social e moral por quem promulga tais ações, sem levar em conta que esses mesmos grupos já possuem voz e se manifestam em sociedade, havendo de fato um silenciamento e apagamento sistemático de seus anseios, de suas existências e saberes. Não havendo a necessidade de lhes dar voz ou visibilidade, mas sim o compromisso dos pertencentes aos grupos opressores de uma sociedade racista e classista como a nossa, em não mais fazer por reproduzir e perpetuar os padrões de exploração que ainda ocasionam situações como as vividas pelas herdeiras de Carolina de Jesus.

"Alguém" está ganhando muito com essa situação, com essa perpetuação de exclusão e privilégio do Brasil senhorial sobre os "outros", sobre a "plebe rude" e "inculta" que jamais podem almejar questionar o seu "não lugar" no mundo, devendo para isso sempre se manterem invisíveis e silenciosos ante as regras não escritas - mas aprendidas, repassadas e perpetuadas - que normatizam e naturalizam o nosso conservadorismo elitista e racista. Edições e mais edições de, e sobre, Carolina de Jesus sendo publicadas, sem nenhuma relação ou interação com as devidas e legítimas herdeiras de sua obra. Carreiras intelectuais, acadêmicas, teatrais, cinematográficas estão sendo construídas em cima do legado dessa obra, com retorno financeiro e simbólico que passam ao largo de quem deveria de fato e legitimamente receber por ela!

A quem interessa essa situação? Por qual motivo o silêncio torpe ante esta situação? Qual a desculpa para se fingir alienante perante tal fato? Como manter-se neutro e indiferente a essa nova e cruel encenação de "Quarto de despejo", tendo o protagonismo

de quatro novas Carolinas, quando vemos suas netas sendo silenciadas até em eventos dedicados a "memória e a obra" de sua avó? Impedidas de falar sobre a própria matriarca, de suas vivências com ela, de como se relacionam e interagem com esse legado ao longo de suas vidas, como interpretam a importância de Carolina de Jesus e sua obra, do simbolismo de sua vida ante as novas gerações... Que preservação e honra a autora e sua obra é essa?

Mulheres negras orgulhosas e socialmente conscientes de sua herança matriarcal, de sua ancestralidade afro, combatentes na busca em fazer valer o seu direito de preservar e divulgar a obra de sua avó, como melhor lhes convier, nesse processo recebendo material e imaterialmente os benefícios decorrentes do uso devido de espólio tão valoroso, e cobiçado por tantos... Mas que são sistematicamente impedidas em exercer aquilo que lhes é herança, enquanto que outros atores sociais sem nenhuma relação direta ou simbólica com a obra de sua avó, que até pouco tempo nem sabiam, ou pouco se importavam, de sua existência, ganham cada vez mais dividendos financeiros e prestígio social, posando por vezes enquanto os legítimos portadores e defensores do legado de Carolina de Jesus, sem nem mencionar qualquer importância em relação as herdeiras devidas em suas falas, em uma tática de invisibilidade e apagamento que se explica, assim como se perpetua, através de nosso arcaísmo racista e machista civilizatório.

Não negamos que a obra de Carolina de Jesus ser divulgada, estudada, problematizada é de suma importância, até mesmo para que possamos nos compreender cada vez mais enquanto sociedade, enquanto nação em busca de sua completude social e cidadã. A nossa contraposição a esse processo(3), é que o mesmo se revela enquanto hipócrita, ao se basear em valores - como o racismo, machismo e elitismo - tão vivamente combatidos na obra de Carolina e principalmente pela exclusão imposta as suas netas, enquanto as herdeiras que deveriam gerenciar e serem as principais beneficiadas desse revival em torno da vida e obra de sua avó.

O que esperamos - e esse artigo é redigido nesse sentido - é que se faça respeitar de fato e da maneira devida, a obra de autora tão referencial, de sua trajetória de lutas, batalhas, dores, sofrimentos e principalmente de esperança. Uma esperança que identificamos tanto em relação a futuros dias melhores, quanto no sentido de que sua escrita ,de estilística sofisticada e discursiva socialmente impactante, fosse de fato compreendida para além da forma preconceituosa de simples e singelo relato-denúncia de uma "negra favelada", e passasse a ser analisada e tratada enquanto a produção intelectual, consciente e política de uma mulher negra racial e socialmente consciente, construtora de um conjunto literário visando contribuir para a edificação de uma outra realidade-mundo, mais justa e igualitária, em que as gerações futuras - como as de suas netas - não mais fossem vítimas de nosso racismo e machismo estrutural.

Que se respeite sua vida e obra, seus sonhos e anseios! Que se faça honrar os seus desejos, as suas vontades, as suas potências e saberes! E que suas valorosas netas-herdeiras consigam fazer valer seus direitos e usufruir da chama viva e transformadora do legado de sua avó!

Fora isso, é tudo de fato desprezo e abuso em relação a obra de Carolina de Jesus, em um eterno perpetuar - enquanto vitorioso - de tudo aquilo que ela sempre combateu por toda a sua vida, retratado em um grande quarto de despejo chamado Brasil!

Notas Referenciais:

(1) Dedico esse artigo a minha mãe Maria da Graça Ferreira Ribeiro, por me apresentar os significados e a importância da vida-obra de Carolina Maria de Jesus e a Liliam, Adriana, Elisa e Eliane, netas e herdeiras legítimas do legado de sua avó.

(2) Reportagens que atestam tal realidade, podem ser acessadas através dos respectivos links: https://www.otempo.com.br/diversao/netas-de-escritora-carolina-maria-de-jesus-dizem-viver-quarto-de-despejo-2-1.2467384, https://notaterapia.com.br/2021/04/03/netas-de-carolina-de-jesus-contam-que-vivem-quarto-de-despejo-2/,

(3) Que também se caracteriza por não valorizar, por não citar a importância dos movimentos culturais e políticos afro-brasileiros para a preservação e divulgação da obra vida e obra da Carolina de Jesus ao longo de décadas, quando seu legado não era moda, nem tendência reconhecida - ou tolerada? - pelos círculos intelectuais/acadêmicos hegemônicos.

Christian Ribeiro, mestre em Urbanismo, professor de Sociologia da SEDUC-SP, doutorando em Sociologia pelo IFCH-UNICAMP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil.
Christian Ribeiro, mestre em Urbanismo, professor de Sociologia da SEDUC-SP, doutorando em Sociologia pelo IFCH-UNICAMP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil.