Mulher Negra: Mídia e esteriótipos 

25/05/2020


Por: Adriana Fernandes

O corpo da mulher negra, ainda hoje, vive marcado pelas chicotadas e abusos sofridos na época da escravidão e é inegável que isto gerou na mente do povo brasileiro uma ideia de que o corpo feminino negro é banal, extremamente sexual, exótico, erótico e acessível. Desde o período escravocrata que a mulher negra tem sido vítima de estereótipos. Quando a abolição foi oficialmente decretada, a objetificação do corpo feminino negro permaneceu nutrido e crescente. Os homens, principalmente, entendem o corpo da mulher negra como algo acessível e flexível para eles. No momento em que o fundamentalismo cristão foi implantado, as mulheres começaram a ser tratadas como delicadas, puritanas, prontas para o lar. Contudo, essa imagem de bondade não se estendia às mulheres negras, visto que elas continuavam a ser tratadas como seres libidinosos. Nos Estados Unidos, foi desenvolvido, deliberadamente, o mito da Jezabel. Este é um exemplo contundente protagonizado pela mulher "mulata". Essa figura associada à mulher negra, através do olhar branco, indicava que elas eram corpos insaciáveis, com o libido sempre aflorado, eram verdadeiras "devoradoras de homens", como eram chamadas. Os brancos faziam questão de disseminar tais inverdades para que as mulheres negras não adquirissem respeito no pós-abolição.

Com bases em relatos, vivências e estudos, que eu considero essenciais para essas conclusões, eu entendo que até a forma que um homem aborda uma mulher negra é diferente da forma que ele abordaria as demais. Durante uma roda de conversa com umas amigas, compartilhávamos nossas histórias e eu citei o meu incômodo com as abordagens dos homens nas ruas. Uma amiga branca me perguntou se isso não acontecia por causa das minhas roupas (imagine só). Eu respirei fundo e pacientemente respondi que essas situações independia do que eu estava vestindo. Então ela completou afirmando que isso não acontecia com ela, que ninguém a abordava de tal maneira. Eu fiquei em um tremendo desassossego com isso, porque ela é o que a própria sociedade denomina bonita. Então, por que carambolas ninguém dá sequer um psiu para uma mulher assim, enquanto eu sou tocada, gritada, chamada, mexida? Eu sei a resposta! Porque o fator cor determina a maneira com que seremos tratadas. Eu sou preta, então eu pareço popular e acessível. Existe exceção à regra, óbvio. O respeito ao corpo feminino não é prioridade na cultura masculina, mas a abordagem à mulher negra é muito mais ostensiva.

Você pode não concordar comigo, mas, acredito que não é à toa que nos outros países a mulher negra brasileira é vista como caliente, fogosa. Afinal, essa foi a imagem que o brasileiro, intencionalmente, fez questão de importar para atrair turistas, ou posso dizer homens sedentos por carne preta. Tanto as emissoras de TV, quanto livros, jornais, revistas (impressos e online) apresentam as mulheres negras como um tipo de objeto sexual a ser consumido. Para representar o carnaval, por exemplo, o corpo da mulher negra é estampado seminu, cheias de curvas, com peitos e bumbuns avantajados. Por muitas décadas assistimos a Globeleza sambar em nossas telas coberta apenas por alguns traços de tinta, glíter e purpurina. Por mais que eu defenda a naturalização do corpo nu, a exposição em massa do corpo de um único grupo racial é racismo, é hipersexualização e objetificação. Nesse momento você deve está se perguntando por que então as mulheres negras permitem que usem seus corpos para tal finalidade. Eu tenho algumas explicações que para mim é bem convincente. 1. É a oportunidade que se tem de ganhar visibilidade. 2. Sobrevivência. É um meio de ganhar dinheiro. 3. Vivência. É algo naturalizado pelo contexto social. 4. Só aceitam se for assim. Os racistas só dão oportunidade se for nessas condições. 5. Ignorância. A grande maioria não tem a consciência de que está contribuindo com um sistema racista que usa seus corpos.

Quando eu comecei a ter consciência de raça, gênero e classe, entendi que autorxs de novelas colocavam os negros em papéis de empregados, ladrões, bolsistas (escolas particulares). Numa tentativa forjada de discutir o racismo, o racismo era perpetuado, ao invés de quebrado. Acompanha o meu raciocínio... Nas novelas apresentadas por emissoras de TV a posição da menina/mulher é pré-estabelecidas de acordo com o seu tom de pele e/ou sua raça. As brancas sua maioria são as protagonistas (as mocinhas e vilãs). As negras são as sedutoras fogosas, as "faveladas" (com uma linguagem vulgarizada, sambistas, funkeiras, forrozeiras), as ex-pobres (aquelas que eram pobres mas enriqueceram ganhando na loteria ou fazendo comidas deliciosas) e as que continuam pobre (na maioria são empregadas domésticas sem fala ou que falam m£R¢@. As personagens são tão limitadas que se resumem a isso. Essas situações ficaram mais evidentes na minha mente quando em uma discussão com um amigo, ele me disse que em uma determinada novela uma adolescente tinha furtado um objeto do colega, e advinha qual a cor da "meliante"? Acertou! Preta, minhas caras! A discussão ficou mais calorosa quando eu quis explicar para o meu amigo que - o preto sempre é colocado em situações previsíveis como essa, situações de marginalidade. Eu continuei na minha tentativa falha de argumentar que a emissora tinha uma visão racista sobre o negro, e que estas cenas só comprovavam isso. E o meu amigo, que é negro, mas totalmente alienado pela branquitude, permanecia irredutível e só me dizia; - Mas ela realmente era negra! Mas ela realmente roubou! A discussão só encerrou quando ele entendeu que o problema não está em conceder aos negros protagonismos como esse, o problema é a enorme quantidade de vezes que o negro é colocado em eventos assim, enquanto os brancos têm a liberdade de passear por todos os personagens que compõem uma novela, ou a vida.