Lais Melo - Coluna

04/04/2020


Lembra da Preta, personagem da Tais Araújo em "Da cor do pecado"? Em resumo era uma mulher negra forte, mãe solo e batalhadora. Uma das maiores dificuldades a se resolverem ao longo da trama era que a Preta não conseguia viver o seu romance com o homem que amava.
Queria usar essa história como exemplo para direcionar essa reflexão sobre afetividade e pessoas negras. Começando com algumas perguntas para você: * Como têm sido os seus últimos relacionamentos afetivos? * Você sente que amou e foi amado/a? * Quanto tempo durou? * Você teve medo de ser traído/a? * Você se sentia seguro/a sobre o seu amor? * Se sentia apoiado/a?
*Por que será que é tão difícil para nós vivermos romances que nos façam bem, ao invés de nos deixar mais preocupados, ansiosos e deprimidos?
No meu consultório clínica frequentemente recebo mulheres negras me procuram com a seguinte queixa: "Laís, eu sinto que ele/ela pode me trair a qualquer momento, com qualquer pessoa". No início eu pensei que eram casos únicos, ou até uma característica pessoal da paciente X ou Y... Depois de um tempo analisando os casos eu identifiquei alguns padrões, e uma autora que eu gosto muito, chamada bell hooks me ajuda a explicar os mecanismos envolvidos nesse quase "impedimento de amar' que pessoas negras experimentam com mais intensidade em relação a outros grupos étnicos.
É que historicamente nós negros fomos feridos demais. Machucados física e psicologicamente, nossos ancestrais sabiam que era improvável viver um amor por tempo suficiente até que ele florescesse. As famílias eram separadas, episódios em que você era obrigado a assistir seu amor apanhando até sangras também não eram raros, podia acontecer de levarem a pessoa que você amava e você nunca mais voltar a vê-la. Neste cenário reprimir as emoções tornou-se uma possibilidade de sobrevivência.
Essa herança transgeracional nos impacta até hoje, muitas famílias ainda reproduzem a lógica do "se nos deixarmos levar e render pelas emoções estaremos comprometendo a nossa sobrevivência" (pense aí nos seus tios, avós, pais... parece familiar?) sem falar da brutalidade que também é reproduzida dentro das relações familiares, a violência em suas variadas formas, a solidariedade escassa que só aparece em situações de extrema necessidade.

Se você de alguma forma se identifica com as coisas que estou descrevendo aqui e gostaria de viver suas relações de uma forma diferente e mais saudável, saiba que "A arte e a prática de amar começam com nossa capacidade de nos conhecer e afirmar." - Bell Hooks.
Isso significa que uma auto análise é o primeiro passo para quebrar esses ciclos. Ciclos que na verdade não são só nossos né? Vivemos eles coletivamente enquanto pessoas negras. A importância desse movimento está no fato de que nessa sociedade racista e machista nenhum de nós é incentivado a se relacionar intimamente com os próprios desejos, quando nos propomos a fazer isso descobrimos um mundo de possibilidades reais de viver sentimentos como o amor, a alegria, a realização e assim por diante...
Caso ao pensar nisso você sinta que é muito difícil tentar sozinho/a procure um profissional da saúde emocional.
Se permita!