Luciano Vidigal

20/07/2020

Visibilidade da Arte e Cultura Negra antes e depois do Corona Vírus.

Luciano Vidigal - cineasta, ator, professor de teatro do Grupo Nós do Morro. Cria da favela do Vidigal e ativista.

Entrevista por Hosana Elliot

1) Quais dificuldades os profissionais negros têm no quadro artístico, antes e depois da pandemia?

R: "Eu acho que essa dificuldade não é só de agora, ela está há muitos anos, a luta é muito árdua, difícil e dura. Eu lembro que há muito anos atrás, o Milton Gonçalves me falou quando adolescente ' Você vai ter que matar alguns leões por dia, esse mercado não é fácil' e eu não tinha entendido ali, mas para frente e na prática, eu entendi: o mercado ainda é muito embraquecido e racista. Ele reverbera a sociedade que a gente vive. Esse um olhar colonizador para gente, olhar de superioridade. Essa luta, às vezes, vai até para o psicológico. Mas o que me deixa feliz são as potências que estão vindo agora, ainda mais na era digital, para podermos globalizar nossa luta para aqui e fora do Brasil e termos alianças também internacionais.

E isso não tem como voltar atrás, e temos que estar no nosso lugar, de poder.

A mídia está lá e precisamos ocupar. A quarentena em si, para povo preto da favela e artístico sempre existiu ."

2) A discussão efervescida da luta antirracista colaborou para pessoas verem mais a arte e cultura dos negros?

R:"O que está acontecendo no mundo logo após a morte de George Floyd, para mim, que moro na favela, não é novidade.

Já perdi amigos por incursões policiais mal estruturadas. Me abala, mas se tornou uma dor comum .

Mas depois de muita dor e mortes, o mundo começou a acordar nesse lugar de responsabilidade . O Tupac já falava que a geração que vem é a geração que vai 'arrombar a porta '. E estamos arrombando e também invandindo.

Como exemplo de tudo que falei, a polícia que mais mata é brasileira e a nossa polícia tem , na maioria, policiais negros. Os pretos de todos lados estão morrendo. Isso tudo da consequência da sociedade que vivemos e que foi também feita da falsa abolição.

Temos pressa e branquitude tem que ceder o espaço"

3) Quais soluções e objetivos concretos para que artistas negros tenham visibilidade em sua área e estejam no mesmo patamar financeiro e visibilidade de um branco?

R:"Só para frisar: A luta é árdua.

O que me deixa feliz e esperançoso são coletivos negros, como próprio Ativismo Negro que são importantes para que fortaleçam nossa luta e como objetivo de chegar nos lugares de poder, como as Universidades, por exemplo. O 'faça você mesmo' é produzir e gerar nossa economia, para que nossa 'caneta preta ' assine cheques, e fortaleça o 'black money'. Temos muitas histórias singulares e diversas para contar para o mundo.

Precisamos, os profissionais negros em geral, estar no mesmo barco para que o coletivo negro ecoe . Precisamos que, a luta antirracista faça com que os brancos se conscientizem, logo cedam os lugares de poder para poder termos igualdade mais coerente. Essa é a nossa luta e é para onde temos que ir."