Jessica Vicencia - Coluna

04/04/2020

Muito tem se falado, nas últimas semanas, a respeito de Self Made - série que conta a trajetória de Madam C.J. Walker, a primeira mulher negra dos EUA a se tornar milionária, segundo o Guinness Book. Assim como muitos, considerei a série relevante e cativante, nos prende com cenas de mulheres negras empoderadas, danças e penteados diversos. Contudo, destaca-se o fato de terem reforçado a solidão das mulheres negras. A protagonista não teve um relacionamento saudável no primeiro casamento, cria a filha sem a presença paterna, é traída pelo segundo marido e não parece se relacionar afetivamente com outras mulheres negras e apesar de entender e apoiar suas trajetórias, não possui amigas. Não questiono sobre a liberdade artística da série, mas uso o tema como pano de fundo desta escrita.
Segundo o Dossiê Mulheres Negras do Ministério de Direitos Humanos (2013), 55,2% dos lares são chefiados por mulheres negras no quesito "mulher com filhos". Conforme o estudo, mulheres negras são maioria ao chefiar famílias com filhos se comparadas a mulheres não negras. O estudo se comprova ao olhamos nossas famílias. Tem sido comum, ao longo dos anos, vermos nossas mães, tias e avós criarem sozinhas seus filhos e netos, sem vínculo amoroso que dividissem essa difícil trajetória de criar os seus ou com vínculos afetivos com quem não merecia. Diversos são os motivos desta solidão, muitas vezes pode-se dar por escolha própria, por violências sofridas em seus relacionamentos, mas cabe também ressaltar que parte disso se deve aos estereótipos impostos à nós, mulheres negras: servilismo, "mulata" ou "globeleza", reduzidas a nossos corpos e sexualidade. Conforme bell hooks (1995) pontua, "mulheres negras têm sido consideradas 'só corpo, sem mente'". Essa redução do ato de amar e ser amada à utilização do seu corpo é uma das especificidades que diferem o feminismo negro do feminismo não-negro. Mulheres negras são, em geral, mais solitárias e com menos experiências assertivas em seus relacionamentos, e essas trajetórias impactam diretamente em nossa autoestima, segurança e psicológico.Precisamos entender as questões históricas e culturais que nos levam à solidão e ultrapassar essas e outras barreiras que nos são impostas. Não há identidade única em ser mulher negra, mas nossas experiências se assemelham, então sejamos cooperativas com nossos pares, pensemos sobre a solidão que nos acomete, sobre os estereótipos prescritos aos nossos corpos, sejamos benignos com os nossos. E como Madam C.J. Walker, empoderemos umas às outras.