Olhares Negros - Bell Hooks

23/09/2019

Olhares Negros - Bell Hooks

"...é fácil para todos nessa sociedade agir como se pessoas negras e indígenas não sofressem um trauma contínuo. Ninguém fala sobre a dor que nossos ancestrais suportaram e carregam em seus corações e psiques, moldando nossa visão de mundo e comportamento social."

É com esse trecho do livro Olhares Negros, da escritora Bell Hooks, que teve sua versão em português lançada no início deste ano pela @editoraelefante que inicio meu comentário sobre o livro.

Minha função como colunista deste ig é, por meio de uma breve descrição sobre a obra te convencer de que você precisa ler esse livro - e outros.

Olhares Negros é um conjunto de ensaios voltados para a análise de como o olhar de pessoas negras, uma coisa tão simples, foi também criminalizado. Meros olhares de mulheres negras direcionados para objetos são e foram passíveis de repressão e castigos, e estas mulheres negras são automaticamente lidas como invejosas. Para homens negros, o olhar pode custar sua liberdade ou sua vida. Sobre isso, a autora cita caso sobre homens negros que foram linchados por simplesmente olharem.

Além disso, a autora problematiza a falta dos olhares negros em grandes produções literárias e cinematográficas. A falta desses olhares na construção de narrativas gera a produção de obras que reforçam estereótipos de hiperssexualização e animalização de indivíduos negros.

Pensando ainda em produções de grande alcance, a autora problematiza a construção da imagem da cantora Madonna em um capítulo intitulado "Madonna: amante da casa-grande ou irmã de alma?". Hooks desenvolve a resposta para este questionamento seguindo a linha de pensamento proposta pelo título. Quando Madonna fomenta sobre si a imagem de uma mulher "selvagem" em oposição ao que se espera da construção da feminilidade branca (dócil, comportada, religiosa, "bela, recatada e do lar"), ela está externando o seu olhar sobre o que é ser negro de uma forma completamente estereotipada. Neste capítulo, também, a autora fala sobre como a apropriação da cultura negra afro-americana por artistas não-negros sempre resulta no esvaziamento dos significados culturais e em reforço aos estereótipos.

Por fim, os capítulos "Reconstruindo a masculinidade negra" e "Um desafio feminista: devemos chamar todas as mulheres de irmã?" são fundamentais para refletirmos qual feminismo negro estamos construindo. Pensar que dentro do movimento feminista encontramos acolhimento suficiente para chamar todas as mulheres de irmãs é uma enorme utopia. Não é nossa "irmã" aquela que não consegue ver que nós, mulheres negras, possuímos demandas diferentes. Também não é nossa "irmã" aquela que se alia ao patriarcado em busca de ganhos individuais, que prejudica outras mulheres. Pensar dessa forma, é lembrar que para nós o debate também está atrelado à raça, e nesse aspecto devemos evitar estar lado a lado de mulheres que criminalizam olhares negros.

E aí? Quem já leu, o que achou?

E quem não leu tá esperando o que?