Escritos de liberdade

23/09/2019

"Uma vez que a maioria das pessoas negras a Corte já era livre ou liberta e que em questão de pouco tempo a legalidade da escravidão certamente seria derrotada, um grupo de indivíduos negros tomou a iniciativa de criar, ainda em 1887, a Liga dos Homens de Cor, a fim de contribuir para que todos tivessem as condições necessárias ao pleno exercício da cidadania."

É com esta citação tirada da página 314 do livro "Escritos de Liberdade - Literatos Negros, Racismo e Cidadania no Brasil Oitocentista" (@escritos.de.liberdade), da historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto (@anaflaviahist), pela @editoradaunicamp, que inicio o meu convite de hoje para a leitura de mais um livro sensacional.

"Escritos de Liberdade" foi lançado em fevereiro deste ano e a autora investiga a trajetória de literatos negros do século XIX que tiveram atuação fundamental do processo de conquista de liberdade. A História que nos é ensinada na escola nos leva a pensar que a Lei Áurea foi fruto da bondade da princesa Isabel, foi uma concessão das elites e esta visão apaga completamente todos os esforços de pessoas negras, escravizadas ou não, para o fim da escravidão.

Tenho certeza que você, que lê este convite, conhece Machado de Assis, afinal, ele é o maior nome da literatura nacional. Você sabia que ele era um homem negro? Eu espero que a reposta tenha sido sim, senão, fico feliz e triste por estar te dando essa notícia. Feliz, porque é sinal de que este texto te trouxe uma nova informação e triste, porque isso deveria ser ensinado para todos nós durante o ensino básico. Além de romances consagrados como o polêmico "Dom Casmurro" ou "Memórias póstumas de Brás Cubas", Machado também irá atuar intensamente na busca pela liberdade negra, publicando impactantes crônicas em jornais.

E Luiz Gama ou José do Patrocínio? Talvez você saiba vagamente a história do menino que nasceu livre e foi vendido como escravizado por seu pai, um homem branco, e depois conseguiu se livrar do cativeiro e tornou-se rábula (Luiz Gama). E também talvez já tenha ouvido falar de um garoto negro filho de um vigário branco e rico, que ainda adolescente ajudava nas fugas dos escravizados da fazenda de seu pai (José do Patrocínio). Mas e Theophilo Dias de Castro? Arthur Carlos? Ferreira de Menezes? Ignácio de Araújo? Esses nomes lhes são familiares?

A historiografia é construída a partir de disputas. Quando eu era criança, costumava ouvir que "a História é contada pelos vencedores" e no caso da história do Brasil - e diversas outras Histórias - esqueceram de me dizer também que não houve competição para que existissem "perdedores" ou "vencedores", o que aconteceu foi um epistemicídio, completo apagamento das nossas lutas e resgatar essas trajetórias é fundamental para educarmos as próximas gerações com provas documentais que nós nunca nos deixamos escravizar - como dizem uns e outros por ai, e eu não sei se é falta de conhecimento ou desonestidade mesmo.

Por esse e diversos outros motivos que não cabem aqui, lhes convido a ler esse livro e deixo para a autora o apelo de que se produza o quanto antes uma versão infanto-juvenil. Tenho certeza que os pais e as escolas vão adorar ler essas histórias de liberdade para seus pretinhos.