É a raça, “seu” juiz?

17/12/2020

Por: Fabiane Albuquerque, doutora em sociologia

Estou assistindo, estupefata, às mazelas da branquitude privilegiada desse país. Quanta barbaridade! O "esquizofrênico" de Valinhos, o "doente mental" que jogou do seu apartamento em Copacabana, um botijão de gás em um vendedor, assassinando-o, o "desembargador com contatos", que foi definido por uma colega de trabalho como um "ser horroroso", a mulher que humilhou trabalhadores num quiosque no Leblon, dizendo ser filha de homem poderoso. O pai dessa última veio a público dizer que não é juiz, nem poderoso e que a filha tem problemas psiquiátricos.

Uma advogada armou o maior barraco numa padaria, na zona Oeste de São Paulo, cometendo crime de homofobia, ofensa e injúria. Lidiane Brandão Biezok disse ainda que é "advogada internacional", a mesma que roubou a loja Zara. Outro criminoso saiu amigavelmente conduzido pela polícia do seu apartamento, após provas irrefutáveis de tortura física contra a própria avό. Esse também, disseram, tem problemas mentais.

Em setembro de 2020, Celeste Maia, filha de desembargador, dirigindo bêbada, invadiu ciclovia com o seu carrão, fruto da "meritocracia", e atropelou alguns ciclistas, mas foi chamada pela mídia, bondosa e caridosa com seus pares, de "Socialite". Essa palavra para definir quem não trabalha, vive à custa de herança e adora holofotes, é exclusiva da banquitude privilegiada e criminosa das terras "Brasiles".

Olhem ai, Ratinho e Datena! Esperamos ver esses rostos estampados nos seus programas sensacionalistas, onde o corpo do pobre é objeto de expurgo dessa gente que se acha isenta de raça, de crime e ainda estufa o peito para falar de moral, corrupção e bons costumes.

Que os deuses e as deusas nos protejam dessa gente, pois é esse tipo "doente", psicopata, perverso e criminoso, que vem sendo promovido nas empresas, que consegue passar em concurso público para o judiciário, que nos atende nos seus consultórios e que herda, não sό o dinheiro da família, mas o capital social que os possibilitam chegar mais rápido e mais alto na pirâmide social. Brasil é um país doente, não devido ao andar de baixo, mas ao de cima, porque a cabeça, a boca e os olhos se putrefizeram.

Em uma sentença da juíza Inês Marchalek Zarpelon, da 1ª Vara Criminal de Curitiba, essa afirmou em uma decisão sobre um condenado:

Seguramente integrante do grupo criminoso, em razão da sua raça.

Diante disso, perguntar-nos-emos:

É a raça, "seu" juiz?

A criminalidade dos ricos cai no esquecimento e invisibiliza cor e fenótipo. Por exemplo, o pai do ex-presidente Collor, senador Arnon Afonso de Faria Melo à época dos fatos, assassinou dentro do senado um colega parlamentar, em 1962, e isso sequer foi usado contra ele nas eleições de 1989. Se fosse o pai do ex-presidente Lula, teria sido um escândalo: "filho de assassino quer ser presidente". Aécio Neves foi gravado, Michel Temer foi gravado, pedindo e recebendo propina. A esposa de Eduardo Cunha, Claudia Cruz, comprou horrores no exterior com dinheiro público, diz a 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), mas continua livre e solta, leve, não sabemos.

É estratégia associar criminalidade à pobreza e aos negros para impedirmo-nos de ver os crimes dos ricos, desviando-nos o olhar para os nossos iguais.

Para Silvio Almeida, em "Racismo Estrutural",

A permanência do racismo exige, em primeiro lugar, a criação e a recriação de um imaginário social em que determinadas características biológicas ou práticas culturais sejam associadas à raça e, em segundo lugar, que a desigualdade social seja naturalmente atribuída à identidade racial dos indivíduos ou, de outro modo, que a sociedade se torne indiferente ao modo com que determinados grupos raciais detêm privilégios.

Nosso imaginário está tão colonizado pela branquitude, a mesma que nos julga, nos governa, nos representa e se autorrepresenta nas mídias hegemônicas, despistando a sociedade dos seus crimes e do seu caráter, enquanto projeta nos pobres, sobretudo negros, os males desse país, que ainda vende por aí, o mito da Democracia Racial.

Quero deixar aqui esses rostos abaixo para que os guardemos, de-mo-ra-da-men-te, e a cada negro e negra colocada ali, na tele da nossa televisão, nas páginas de facebook, para ilustrar criminalidade, lembremo-nos deles, pois a sociedade brasileira, que sofre de amnésia seletiva, já terá esquecido.

Lidia De santis, bêbada ofendendo trabalhadores no Leblon (Foto da internet)

Lidiane Biezok, a loira da padaria e "advogada internacional" (Foto da internet)

Eduardo Siqueira, "Desembargador com contatos" (Foto da internet)

Mateus Abreu Almeida Prado Couto, o "esquizofrênico" de Valinhos (Foto da internet)

Nívea del Maestro, mulher que diz "Cidadão, não, engenheiro e melhor que você" (Foto da internet)

Rodrigo Ferronaro, o "Cidadão de bem" quebrando uma sorveteria por ter sido advertido que precisava usar mascara (Foto da internet)

Mateus da Luz, neto que torturava a própria avό (Foto da internet)

Claudia Cruz, esposa de Eduardo Cunha, que gastou milhões em roupas e sapatos com dinheiro publico no exterior (Foto da internet)

Celeste Maia, filha do desembargador que dirigia embriagada e atropelou ciclistas (Foto da internet)