Abdias Nascimento

07/05/2020

Abdias Nascimento nasceu em uma família negra e pobre da cidade de Franca, interior do Estado de São Paulo. A sua mãe se chamava Georgina, conhecida como dona Josina, e o pai se chamava José. Ambos eram católicos e tinham sete filhos. A avó materna de Abdias, dona Ismênia, havia sido escrava, e apesar do neto ter nascido no contexto pós-abolição, o racismo e as relações sociais que marcaram o Brasil na época dela ainda vigoravam com bastante força.


Da infância vivida em Franca, Abdias absorveu os saberes dos afrodescendentes mais velhos, que eram repassados através da oralidade, em rodas de conversa. Aos nove anos, o garoto já trabalhava entregando leite e carne nas casas dos moradores mais ricos da cidade e assim ajudava a família financeiramente. Com o pouco que conseguia guardar para si, comprou orgulhoso o seu primeiro par de sapatos. Aos 11 anos entrou para a Escola de Comércio do Ateneu Francano. Nessa época, ia ao grupo escolar de manhã, trabalhava em um consultório médico à tarde e à noite fazia curso de contabilidade. Era apaixonado pelo circo e pelos festejos religiosos, que assistia acompanhado pela família. O garoto vivia naqueles momentos o que identificou mais tarde como o seu encantamento inicial pelo teatro. 

 
Em sua primeira experiência profissional na área de contabilidade, ao ser contratado para trabalhar na administração de uma fazenda em Franca, Abdias sofreria racismo por parte dos seus empregadores, mas optaria por enfrentar a situação e não se curvar, preferindo abandonar o emprego. Mais tarde, o garoto abdicaria outra vez de um emprego, desta vez por outro motivo: deixar definitivamente a cidade natal e ir para São Paulo. Na capital, o tratamento por parte das pessoas àquele jovem negro não seria diferente. Na verdade, o racismo seria experimentado de forma ainda mais forte.Para deixar Franca, a ideia de Abdias foi se alistar no exército. No entanto, uma vez que a idade mínima para o alistamento era 18 anos e Abdias tinha apenas 16, a solução foi falsificar a certidão de nascimento, o que terminou por dar certo. Assim 


Abdias entrou para o Segundo Grupo de Artilharia Pesada de São Paulo. Na capital, além de seguir a carreira de militar, o jovem Abdias não deixaria de lado os estudos e entrou para a faculdade de economia da Escola de Comércio Alvares Penteado.


Nessa época do exército, Abdias ficou bastante amigo de Sebastião Rodrigues Alves, negro como ele. Certa feita, quando resolveram se divertir no cabaré Danúbio Azul, foram proibidos de dançar naquele estabelecimento por serem negros. Sebastião não teve dúvidas, sacou de uma arma e ordenou que a banda tocasse para que seu amigo Abdias dançasse. Enfrentavam assim os dois, a socos e pontapés, o racismo de cada dia. 


Um pouco depois, Abdias se integraria ao movimento da Frente Negra Brasileira, que realizava protestos em locais públicos e trabalhava na perspectiva de integrar o negro brasileiro na sociedade de classes. Combatiam em locais como hotéis, restaurantes e bares que impediam a entrada de negros. Nessa época, Abdias fez inclusive parte da comitiva que foi ao Rio de Janeiro protestar junto ao presidente Getúlio Vargas. 

 
Em 1936 Abdias desligou-se definitivamente do Serviço Militar, instituição com a qual estava em crise desde que começara a militar com o movimento negro. Ao sair do exército, passou a ser ferozmente perseguido pela polícia de São Paulo em razão de sua atuação na FNB. Resolve então partir para o Rio de Janeiro naquele mesmo ano de 1936. Sua primeira residência na então capital federal foi o morro da Mangueira, bem perto da famosa Escola de Samba. As primeiras experiências de emprego não eram nada animadoras para Abdias, até ele vir a ser o revisor do jornal O Radical. 


No Rio, Nascimento adere definitivamente à Ação Integralista Brasileira (AIB) de Plínio Salgado. A participação no movimento foi considerada, pelo próprio Abdias, fundamental para lhe possibilitar conhecimentos sobre a cultura brasileira, arte, literatura e economia. No entanto, insatisfeito com uma corrente do grupo que era racista, ele opta por deixar o movimento em 1937. Mais tarde, em 1945, viria a criticar o movimento em discurso na Convenção Política do Negro Brasileiro.


Mudou-se da Mangueira para Duque de Caxias no final de 1937. Lá, passou a frequentar o famoso candomblé de Joãozinho da Goméia. As diversas manifestações culturais da população negra carioca chamaram e atraíram a atenção do jovem Abdias. Nesse circuito, ele viria a conhecer outros negros de destaque na cena cultural carioca, como o poeta pernambucano Solano Trindade, de quem se tornaria grande amigo. Outra amizade deste círculo era a do maestro Abgail Moura, que em 1942 fundou e regeu a Orquestra Afro-brasileira. Essas experiências fundamentais para a formação do intelectual Abdias eram somadas à formação acadêmica na faculdade de economia da então Universidade do Brasil.
Com a instauração da ditadura do Estado Novo, as perseguições políticas se intensificaram e Abdias, após realizar protesto panfletário contra a presença da marinha norte-americana na Baia de Guanabara, é preso. Após a liberdade, volta a morar em São Paulo e participa, em Campinas, do I Congresso Afro-campineiro. 


Consegue emprego como contador no Banco Mercantil de São Paulo, no entanto, um tempo depois, pede demissão e volta para o Rio de Janeiro, mas não por muito tempo. Envolvido com um grupo de poetas brasileiros e argentinos, Abdias viaja, ao lado dos amigos, pelo Brasil e América Latina, passando por Amazônia (Brasil), Iquitos e Lima (Peru), Letícia (Colômbia), La Paz (Bolívia) e Buenos Aires (Argentina). E justamente em Lima ocorreu aquela que pode ser considerada a grande virada na vida de Abdias. 


No teatro municipal daquela cidade ele viu pela primeira vez a peça O Imperador Jones, que anos depois ele encenaria no Rio de Janeiro. Os atores da peça eram todos brancos, sendo que aqueles que representavam personagens negros tinham que atuar pintados de preto. Vendo aquela encenação, Abdias começou a refletir sobre a não existência de atores negros no teatro brasileiro. 

 
Pouco depois de retornar para o Brasil, Abdias seria preso novamente, desta vez na famigerada penitenciária do Carandiru, em razão de uma briga na porta de um bar em São Paulo, quando ele e seu amigo Sebastião bateram em um delegado. No Carandiru, Abdias se dedicou intensamente à leitura e criou o Teatro do Sentenciado, um grupo em que os atores eram os próprios presos e ele o diretor dos espetáculos. Após a liberdade de Abdias, no entanto, o grupo teve fim.


Ao deixar a prisão, seguiu para o Rio de Janeiro, onde em 13 de outubro de 1944, como resultado das reflexões surgidas no Peru, fundaria o Teatro Experimental do Negro, ao lado de Aguinaldo Oliveira de Camargo, Wilson Tibério, Sebastião Rodrigues Alves, Arinda Serafim e Ilena Teixeira, entre outros. Ao grupo, um pouco mais tarde, se uniria também a atriz Ruth de Souza. A primeira peça encenada pelo Teatro Experimental do Negro (TEN), formado exclusivamente por atores negros, foi O Imperador Jones, como não poderia deixar de ser. A peça, do escritor norte-americano Eugene O´Neill, aquela mesma que Abdias assistiu no Peru, teve uma única apresentação no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 18 de maio de 1945. Foi um enorme sucesso, apesar de parte da crítica racista da época ter feito duras críticas à iniciativa de um teatro de atores negros, afirmando ser desnecessária, pois não havia racismo no Brasil. 


O grupo ainda montaria mais duas peças teatrais baseadas em escritos de O`Neill, que havia autorizado ao grupo a encenação de todas as suas obras. Com o sucesso da companhia, escritores brasileiros passaram a escrever peças teatrais especialmente para o TEN. Nelson Rodrigues, por exemplo, escreveu Anjo Negro, enquanto Joaquim Ribeiro escreveu Aruanda. Em 1948, por sua vez, o grupo encenou Filhos de Santo, de José de Moraes Pinho e em 1952, Rapsódia, do próprio Abdias Nascimento. Esta peça lançou a bailarina Mercedes Baptista e a atriz Lea Garcia, na época esposa de Abdias e mãe de seus dois primeiros filhos Abdias Nascimento Filho e Henrique Cristóvão. Paralelamente ao trabalho de dirigir e atuar no TEN, Nascimento também seguia a carreira de ator de cinema. Em 1959 ele participou do filme O homem do Sputinik, de Carlos Manga, e em 1962 de Cinco vezes favela - Escola de Samba Alegria de Viver. 


Em 1945, Abdias fundou o braço político do TEN, o Comitê Democrático Afro-brasileiro, com sede na UNE. No mesmo ano, foi organizada a Convenção Nacional do Negro, no Rio de Janeiro e em São Paulo. O ano de 1948, por sua vez, marca a fundação do jornal Quilombo, que circulou por dois anos e serviu de forte interlocutor entre a luta dos negros brasileiros e as lutas empreendidas no exterior. Em 1950 ocorreu o I Congresso do Negro Brasileiro, organizado por Abdias e o Teatro Experimental do Negro. Mais tarde, em 1968, Abdias publicaria o livro O Negro Revoltado, que trazia algumas das pesquisas e comunicações daquele evento. 


Ao longo das décadas de 50 e 60, Abdias militou pelo movimento negro em congressos, encontros e protestos que esta parcela da população promovia, muitas vezes sob a liderança do próprio. Com o golpe militar de 1964, no entanto, a militância negra enfrentou forte repressão por parte dos governos. A posterior promulgação do famigerado AI-5 em 1968 proibiu oficialmente a militância negra antirracista, o que levou Abdias a buscar exílio nos Estados Unidos, onde viveria por quase treze anos, militando pelo movimento pan-africanista O motivo inicial da viagem foi a possibilidade de conhecer organizações sociais e lideranças afro-americanas, o que ocorreu a convite da Fairfield Foundation. No final dos anos sessenta, os EUA passavam por momentos conturbados, marcados por fortes manifestações do movimento negro, na luta contra o racismo e pela igualdade dos direitos civis. Inserido nesse contexto, Abdias esteve, por exemplo, com Bobby Seale, o presidente dos Panteras Negras.
Durante o longo exílio, Abdias dedicou-se com ênfase à carreira de artista plástico, que havia emergido durante uma curta estadia dele em Nova Iorque no início de 1968, antes do início do exílio. Ao longo dos treze anos que viveu fora do país, além de pintar, também foi convidado a expor suas obras e realizar curadorias de exposições em galerias de universidades norte-americanas. Após algumas exposições individuais em Nova Iorque, primeiro destino do exílio, Abdias foi convidado pela Universidade Wesleyan, de Middletown, para atuar como professor visitante. Enquanto esteve por lá, tomou parte nos levantes que ocorriam na universidade de Harvard, contra o financiamento de projetos na África do Sul, país do apartheid.


Da atividade de professor visitante na Wesleyan University, Abdias foi para a Universidade do Estado de Nova Iorque, na cidade de Buffalo, desta vez como professor contratado e com dedicação exclusiva. Foi nesse período, no início da década de setenta, que Abdias conheceria a estudante loira e branca Elisa Larkin, que viria a ser sua esposa e mãe de seu terceiro filho, Osiris e sua única filha mulher, Yemanjá do Nascimento. Elisa falava português, pois havia estado no Brasil como aluna de intercâmbio. Abdias se recusava a aprender a falar inglês, pois afirmava não querer ser colonizado duas vezes. 

 
O período no qual o teatrólogo brasileiro ficou em exílio foi muito fértil intelectualmente para o pan-africanismo, movimento intelectual que propunha a união e unidade política entre as nações africanas e as culturas decorrentes da diáspora deste continente. Grandes pensadores debatiam as perspectivas da questão racial em escala atlântica, espelhados pelas Américas, África e Europa, alguns deles empenhados na ideia de uma África Ocidental socialista, influenciados que estavam pelas teorias marxistas. Abdias ficaria fortemente entusiasmado com uma das vertentes do pan-africanismo, aquela de ideologia mais nacionalista, representada nas figuras de Steve Biko (África do Sul), Patrice Lumumba (República Democrática do Congo), Aime Césaire (Martinica) e Malcolm X (Estados Unidos). Com esse espírito, participou da Conferência Pan-Africana Preparatória realizada em Kingston, Jamaica, em 1973, que abriu os trabalhos para o 6º Congresso Pan-Africano, realizado no ano seguinte na Tanzânia, em Dar-es-Salam. Entre 1976 e 1977, Abdias residiu na Nigéria, onde atuou como professor visitante na Universidade de Ifé.


O exílio de Abdias terminou em 1981. Nesse mesmo ano, com a ajuda de Dom Paulo Evaristo Arns, criou em São Paulo o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro). Em 1982 o instituto organizou e realizou o 3º Congresso de Cultura Negra das Amércias, presidido por Abdias. No papel de artista plástico, ele ainda realizaria diversas exposições em museus, universidades e centros culturais brasileiros.


Após o fim do regime militar, a luta no plano da política se abria como um novo campo de atuação para a batalha dos afrodescendentes no Brasil. Desde 1979, ainda no exílio, Abdias se aproximara de Leonel Brizola, líder do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). Devido à atuação de Nascimento junto ao partido desde que voltara ao Rio de Janeiro, foi criada dentro do PDT em 1981 a Secretaria do Movimento Negro. Em 1982, participando de suas primeiras eleições, Abdias foi eleito para o posto de Deputado Federal pelo Rio de Janeiro, sob a bandeira da luta contra o racismo. Era a primeira vez na historia do Brasil que um afrodescendente assumia este cargo com as bandeiras da luta do movimento negro. Como seria de se esperar, Abdias não foi bem recebido pelos demais políticos, que julgavam absurdas as suas bandeiras. No entanto, aos poucos e com muita insistência, ele soube fazer valer seus discursos e suas propostas, como o questionamento à comemoração da data do treze de maio e a demanda pela oficialização do dia 20 de novembro como dia da consciência negra. Em 1991 Abdias chegou ao Senado. Depois, foi nomeado Secretário de Defesa e Promoção da Igualdade Racial do Governo do Estado do Rio de Janeiro, quando Leonel Brizola era o governador. Após a morte de Darcy Ribeiro em 1996, assumiu outra vez a cadeira do Senado, permanecendo até 1998.


A partir dos anos dois mil, Abdias receberia uma porção de homenagens e premiações em reverência à sua trajetória de vida, a começar pelas comemorações pelos seus noventa anos em 2003. No ano seguinte, ele receberia o Prêmio Toussaint Louverture pelos Extraordinários Serviços Prestados à Luta contra a Discriminação Racial, na sede da UNESCO em Paris. Abdias Nascimento faleceu em 24 de maio de 2011, aos 97 anos, vítima de uma pneumonia que se complicou e agravou problemas cardíacos. A herança de sua trajetória e ensinamentos se encontra presente na luta de cada um dos afrodescendentes, contra o racismo e a discriminação.

Fontes de Referências

Almada, Sandra. Abdias Nascimento. São Paulo: Selo Negro, 2009.
Nascimento, Elisa Larkin (org). Os Orixás do Abdias. Pinturas e poesia de Abdias Nascimento. Brasília: IPEAFRO e Fundação Cultural Palmares, 2006.
Nascimento, Abdias (org). O Negro Revoltado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982 (2ªedição).
Semóg, Éle; Nascimento, Abdias. Abdias Nascimento: o griot e as muralhas. Rio de Janeiro: Pallas 2006.