2° Parte

27/02/2021

JAFARI

Uma historia escrita por:
Laura Lopes

No século 22, os continentes se tornaram uma espécie de "pangeia moderna", em que todas as nações investiram para unir as faixas de terra. Anualmente, os representantes de cada um dos países se reúnem num Comício da Reconquista, em que eles debatem todas as medidas que serão feitas para manter o controle e a paz mundial. Mas o Brasil sempre se opôs às propostas feitas no Comício, sendo assim, o país se isolou do mundo com sua própria política individualista se afogando na apatia.

Entretanto, existia uma agência secreta chamada Corporação Dandara dos Palmares (CDP), que agia de maneira incisiva e perspicaz. Não era um grupo de rebeliões, era um grupo de agentes que eram contra as políticas supremacistas do governo e que agiam em cada missão com objetivo da reafirmação da identidade negra. Eles possuíam uma ONG aparentemente simples e humilde na periferia do Rio de Janeiro, bem como um 'cavalo de Tróia', mas a superestrutura era escondida numa gruta na terceira Ilha da Costa Verde onde nenhuma figura política sabia da existência ou tinha acesso. Os funcionários trabalhavam para reconectar as pessoas ao seu passado e uma das agentes mais bem cotadas, Fayola Garvey, recebeu a missão de resgatar a memória de José Torres, que em outra época fora chefe de estado do Brasil, mas teve sua memória roubada por um dos ministros mais influentes - que a esconde numa câmara no palácio central. E como primeira etapa dessa missão, a agência pagará a fiança de José. A agente infiltrada Fayola G. se apresentará como Analu, uma funcionária de serviço social da ONG que vai prestar assistência a um ex-detento. 

Fayola G. seria a profissional certa para isto, ela era ousada, inteligente, sabia se impor, não tinha medo de encarar um exército inteiro e fazia todo o exército parar para ouvir o que ela tinha a dizer. Ela era a pessoa certa para isso. Era uma mulher que sabia como agir em todas as situações, não à toa era reconhecida por todo o mundo. Ela obteve sucesso em todas as suas missões e negou um dos cargos de sócia da agência por não a colocar em combate, isso significaria não ficar no plano de ação ou fazer missões, estando somente na administração e isso não era o que ela apreciava. Fayola G. definitivamente é a pessoa para essa missão.

Desde a chegada de Benício da Silva ao poder, para os patriotas, todos os dias em 3 horários diferentes as telas do país eram dominadas por uma mensagem do presidente vigente, com o objetivo de padronizar o comportamento do cidadão. E esses anúncios presidenciais também chegavam às celas dos detentos, muito porque os presídios possuíam 96% de pessoas negras e a abordagem era mais ríspida e eugênica, os tornando inimigos de sua própria cultura, não só como também, os fazendo se menosprezar e sentir o dever de seguir um chefe. Para os recém chegados, a detenção era a partir de seis anos, tempo suficiente para serem introduzidos ao modelo de estado de Benício e chegarem ao padrão de um cidadão ideal. E não existiam reincidentes, não existiam chances de não ser enquadrado ao modelo Benício.

Não menos importante, os esquecidos (acadêmicos, cientistas e etc) estes poderiam permanecer em vida no esquecimento ou morrer pelo o que acreditam. A vida era assim, eram 2 Brasis, o Brasil para os vazios e o Brasil para os esquecidos.

Sendo 6 anos o tempo mínimo da pena, José Torres era um dos detentos mais antigos e no ano de 2123 completava seus 26 anos encarcerado. Tudo era bem tardio nos presídios, a tecnologia só chegava até os limites das cidades. E se tratando da fama de Zé, ele era conhecido pelos corredores de: "Zé ninguém". Era um homem quieto, educado, só falava o necessário, comia sozinho, nos banhos de sol ficava sozinho e todos achavam isso bem incomum, mas ninguém se metia com Zé. Nesses 26 anos, muita gente passou por sua vida, ou melhor, pela cadeia e antes de dividir cela persistia na sua solidão, mas ao passo que os anos se encaminharam e as prisões começaram a lotar, Zé chegou a compartilhar uma cela com até 4 outros detentos. 

"Se todas as vidas importassem, nós não precisaríamos proclamar enfaticamente que a vida dos negros importa." Essa foi uma das frases ditas por Ângela Davis durante um discurso sobre direitos humanos na Universidade Estadual San José, nos Estados Unidos, em 2015.

E nesse ir e vir, Zé foi deixando seu silêncio de lado, começando a lidar com pessoas e entendendo suas histórias, percebendo assim que todas pareciam as mesmas em tempos diferentes. Isso aflorou um certo tipo de 'flash de memória'. Ironicamente, em todos esses anos ouvindo tanta coisa de pessoas que ele mal conhecia, pessoas que já foram embora da prisão, mudaram de cela ou morreram por lá, todas elas pareciam se conectar. Elas pareciam se encaixar num único sonho que ecoava toda noite nos pensamentos de Zé. Por todos esses anos, Zé nunca deu voz a esse mesmo "sonho", mas depois de um tempo começou a encarar de uma forma diferente, como um sinal de algo que estava prestes a acontecer. E honestamente, José não tinha tanta coisa na cabeça, então não foi difícil memorizar. Mesmo sendo um homem de poucas palavras, era muito expressivo e buscava fugir do desvio de caráter, porque tinha esperança de que um dia sairia dessa.

Uma semana depois, Zé e seus três colegas de cela ouviram que chegaria uma remessa de novos detentos vindos diretamente da cidade, devido uma nova lei sancionada por Benício que levou os Ticunas (a polícia) a fazerem uma completa varredura no Rio de Janeiro. Sendo assim, mais pessoas estariam prestes a ocupar mais celas. E a cela 3, a de Zé, ganhou mais um homem. #Paraná cujo nome era Estênio, não era um homem de idade, era um moço de 33 anos que tinha uma aliança lá fora com um grupo rebelde que desprezava 100% o mandato de Benício da Silva. Seus integrantes eram identificados por nomes dos maiores rios do Brasil - certamente, pela fluidez e inconstância - por ser mais fácil de trabalhar e pelo anonimato diante da repressão do Estado. Paraná era malandro, nunca havia sido preso e entrou preparado para sair e seriam 3 dias para a fuga. Todos os rios do grupo rebelde já tinham seu próprio plano caso fossem pegos, e essa era a única solidez e perfeição em seus planos, a fuga. Era sobre ter regras, mas não regradores. 

"Liberte as mentes dos homens e, finalmente, você liberará os corpos dos homens."                   - Marcus Garvey